segunda-feira, 8 de junho de 2015

Assim se Cumpre em Mim a Lei de Talião (7ª Parte)

Ao ser alvejada, a minha alma, todo o meu sentido se evaporou. O Espírito estava desmaiado. Uma força de sucção começou a exercer-se dentro de mim, como se me puxasse para dentro de algo quente. Tentei evitá-lo, por não saber ao certo o que me esperava, mas era demasiado tarde. Um calor infernal subiu através da minha espinha e consegui ver novamente como um homem vê, com os dois olhos miraculosos a brilharem para o mundo. O que primeiro vi foi uma grande multidão, de castanho vestida, observando-me de uma plataforma inferior. Eu estava acima deles e isso incomodou-me. Olhei em volta e um gigantesco homem com um capuz negro deu à minha inteligência a informação de que precisava para saber o que se estava a passar à minha volta naquele lugar. Fiquei pior quando a lâmina reflectiu a luz do sol nos meus olhos, cegando-me momentaneamente. Olhei o céu e vi a alma justa que subia já bem alto, sem ter de sofrer a execução terrena. Tentei gritar e explicar que aquele não era o meu corpo! Por louco me tomaram, obviamente. Aquele corpo à pena estava condenado, pelo que leram os meus crimes humilhantes e a multidão deu aval à minha morte. O falsário enganara o rei opressor, pelo que os céus o acolhiam, justamente. Curvaram-me e meteram a minha cabeça no lugar onde a lâmina a cortaria. A multidão ovacionou o carrasco quando ele puxou o manípulo e a guilhotina caiu. A força perfeita do golpe atirou a minha cabeça para o cesto. Algo estranho se passava porque a alma no mesmo lugar estava, como indiferente ao separamento da cabeça. Ergui-me, decapitado. Na multidão, um uivo de horror arrepiou a tarde sonolenta, e, garanto-vos, que esse demónio de medo pela boca libertado não se comparava que ao da minha teria saído caso a ela tivesse acesso. Em semelhante horror nunca me tinha encontrado e gostaria de aos arquitectos do mundo perguntar se cabeça e espírito se podem assim apartar.

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