domingo, 7 de junho de 2015

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (3 de Junho de 2015)

Estava sentado num banco de jardim ao pé de uma velhota que estava a ver passear o seu cão, que corria pelos canteiros livremente, cheirando coisas e procurando vida, quando comecei a riscar fósforos e a atirá-los para o chão à nossa frente com um gesto despreocupado, para ver a sua trajectória e acompanhar a chama enquanto a via desvanecer e apagar-se em pleno ar. Era incrível ouvir o som dos fósforos explodir e ver voar aquele fogo por mim provocado cruzando o espaço. Ao terceiro ou quarto fósforo que lancei (tinha uma caixa cheia deles), a senhora ao pé de mim levantou-se, demonstrando o incómodo que sentia com um olhar repugnado na minha direcção. Eu não fiquei minimamente preocupado. Sabia que não estava a fazer nada de mal. Os fósforos, antes de caírem no chão apagavam-se e aquilo era areia, não ia pegar fogo. Se ela me tivesse pedido eu até a deixava riscar e atirar alguns fósforos, mas ela não teve a decência de pedir e preferiu embirrar. Chamou o cão, que pareceu contrariado quando a ouviu, mas que se lançou numa correria louca para perto de nós quando me viu lançar um fósforo. Ignorando a dona, ele aproximou-se de mim e acompanhou maravilhado o voo de um fósforo. Ele aproximou o focinho do fósforo que lançava o fumo pós-chama e recuou com algum medo. Olhou-me enquanto explodia mais um fósforo e eu vi um reflexo de paixão no seu olhar irracional. Ele temia-me e amava-me, eu era um dos seus deuses, Zenit, o Homem-Fogo, o criador das Chamas Mistério. A sua dona chamou-o, clamando, sentindo-se substituída, pois todos os donos querem ser deuses únicos dos seus animais de estimação. O cão acabou por lhe obedecer, mas antes de ir ter com ela abocanhou três fósforos ainda quentes, e levou-os entre os dentes para a sua vida e eu tenho a certeza que ele mastigou dois deles com os seus fortes maxilares, até ficarem desfeitos numa pasta e cuspiu-a para o chão à frente da sua dona num momento de revolta. O outro fósforo guardou-o como relíquia num sítio escondido.

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