quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Os Homens Quebrados (XXXIV)

Este é o primeiro comboio, o das 05:31 da manhã. Não sei se pára às 05:31 em alguma estação. Sei que às 05:31 ele passa em minha casa com o seu som distante, a trezentos metros de mim, longe de minha casa, por trás de muitos prédios, impossível de alcançar com a vista, só o sinto com o som triste que me manda uma informação específica: O DIA ESTÁ A COMEÇAR E EU AINDA ESTOU ACORDADO. Desperto por pesadelos, acordado para pesadelos, sonhando sonhos maravilhosos. Os meus ossos estão quebrados e eu estou relaxado, sinto o som do mundo e o encanto maravilha-me. Estou perdido, mas sei quando chega a carrinha do pão e isso já foi há muito tempo. Eram horas em que não era quem sou. Eu não estou aqui por nenhum motivo especial, vocês podem sair, já sabem, não tenho grande coisa para dizer. Eu queria dizer que as melhores ideias nos surgem em momentos em que não temos nada para escreveres. Explosões fulgurantes de imaginação. Momentos de verdade a que não conseguimos voltar, mas terei de escrever outro texto sobre isso, porque este é sobre...é sobre o quê ao certo? Não tens nada para dizer. Então...Fala daquilo que te vem à memória, estavas a pensar naqueles pensamentos a que não regressas, fala disso. Foi só disso que falei? Acho que já disse tudo. São aqueles momentos, sabes, em que vês, mas agora não estás a ver nada, estás simplesmente mareado. Ondulando nas ondas do mar, provavelmente a ter pensamentos majestosos a que jamais poderei aceder. Em barcos, sim! Barcos extravagantes com pessoas vestidas a rigor com trajes de bela cor. Essas ideias catárticas, ah, quantas vezes pode uma alma mudar a sua direcção, quantas máscaras tem à sua disposição? Quantos anos de terror para ver, atirar para crer? Quem? Como? Onde? Não há terror nenhum, afinal, estou seguro disso. Posso afiançar-vos. Estou entre os que dizem a verdade, até podia apagar o que escrevi para vos enganar, os escritores fazem isso, mas eu não sou um escritor, eles são uns quiromanos idiotas. Eu sou só um ser que rasteja entre palavras que não querem dizer nada e vocês sabem disso. Eu guardo o Grande segredo. O quê? Qual? Como? Não! Não há segredo nenhum, segredos, onde? Eu não me posso boicotar assim enquanto escrevo, já sabeis que também eu aderi aos Homens Quebrados. Esgotei-me num desejo de não fazer nada e viciei-me nele.

Mas quem sou eu?
Eu fui sempre eu o tempo todo
Tens segredos?
N.V.O Zénite guardou-os todos
Foges à questão, estás entre os dissimuladores porque ages nas sombras quais sãos os teus temores?
Estes sons da Terra estes constantes tremores
Este mundo num decadente devir
E a certeza de que o pior ainda está para vir
Estás entre os infiéis ao espírito, tenho a certeza que o teu senhor te deveria admoestar. Estás num notável extravio. Ele talvez te devesse eliminar, como quem esquece alguma coisa.
Eu estou vivo nele. Apoderei-me do sistema dele e ele agora já não vive sem mim. Eu sou o zénite agora e o Zénite é o Nadir. Encolhi-o terrivelmente. Foi uma magia fantástica. Eu estou entre os que acreditaram num caminho e percorri-o conquistando a glória de um corpo.
Mas desgastaste uma alma bondosa
N.V. Não há só que ser bom num mundo de caos. É preciso sermos muitas coisas. O Zénite percebeu isso comigo...


Nadir Veld

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