segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (31 de Janeiro de 2016)

Saía tranquilamente do metro na estação Baixa-Chiado quando, quase a chegar aos pórticos que devia atravessar atrás de alguém porque não tinha bilhete, avistei dois revisores nos seus vestidos negros com braceletes verdes fluorescentes. Dei meia volta, mas eles já me tinham micado. Larguei a correr para trás em direcção às carruagens do Metro. Senti um deles seguir-me pelo som do chão na minha alma, mas também pelos olhares que as pessoas que passavam, sossegadas, com os seus bilhetes reluzentes, uma passagem segura para o conforto, me iam lançando. Fui para a Linha Azul porque tinha chegado da Linha Verde e assim era mais provável apanhar um comboio naquele segundo e evitar o cabrão do pica, malvado assassino cujo profissão é assaltar pobres! Desci as escadas quatro a quatro em direcção a Santa Apolónia, mas o próximo comboio só vinha dali a três minutos, ainda assim continuei a correr, parando só a meio da estação para olhar para trás. Vi apenas os seus pés no cimo da escada. Queria encurralar-me. Do outro lado ia aparecer outro revisor. Percebi a manhã deles. Só nesse momento me lembrei de olhar para ver quanto tempo faltaria para o próximo Metro do outro lado, em direcção a Amadora Este. Chegaria em 20 segundos e eu estava no outro lado, então tomei a decisão de uma vida, a decisão de enfrentar os símbolos de morte feitos de ferro no carril electrificado. Saltei para a linha, tirei o casaco que vestia e lancei-o para a plataforma em que as pessoas surpreendidas me observavam, podia haver alguém que o quisesse, saltei a barra electrificada, evitei calcar qualquer ferro, guiando-me na pedra e na madeira. Saltei para a outra plataforma, que tinha bastantes pessoas, ainda antes de o metro estar visível. Senti que toda a gente me olhava enquanto eu não olhava para nada enquanto ansiava rezando pelo momento em que as portas se abrissem e eu pudesse desaparecer do mapa ajudado por aquele pequena multidão e a que me aguardava para lá do veículo. Quando finalmente as portas se abriram percebi que a minha marosca fora descoberta pelos revisores. O que correra atrás de mim em primeiro lugar desceu as escadas e entrou na carruagem, mas não me viu, eu entrei também, acompanhando o idiota. Eu já estava no mundo, fora do seu alcance. Ele podia ter percebido isso. Ao fundo da carruagem em que eu entrei estava uma jovem mulher bastante gorda. A sua gordura descaía para fora da camisola. Até a sua cara era gorda e coroada de borbulhas opulentas. Aproximei-me dela com o mesmo sorriso galante com que me aproximo de todas as donzelas. Ela lia atentamente uma célebre novela de amor de um autor inglês. Eu citei-lhe uma frase do livro: "Mais que as belas horas em que sorrimos lado a lado, lembremos antes as lágrimas do nosso amor amaldiçoado". O meu olhar vertia raios de pura compreensão, ela concedeu. Beijei-a docemente nos lábios enquanto as suas lágrimas aqueciam a minha face. Amei-a 30 segundos como quem não ama dois milénios. Quando abri os olhos daquele maravilhamento, vi o pica à minha frente num tormento. Ele procurava por todo o lado, lançando olhares suspeitos a todos os passageiros. Quando os seus olhos pousaram em mim ele aproximou-se e julgou conhecer-me.
- O Senhor estava na Baixa-Chiado - disse ele.
- Eu sempre estive com a Anabela. - respondi eu com um sorriso e uma carícia. Ela retribuiu com um longo beijo.
- Mostre-me o seu bilhete, por favor.
Tirei um daqueles bilhetes verdes da CP e do Metro e mostrei-lho. No meio da correria o cabrão do Vigilante esqueceu-se de trazer a sua maquineta para conferir os bilhetes. Ele ficou atónito e devolveu-me passados dez segundos. Neste momento, a minha mulher tomou o meu partido num tom estridente.
- Então, porque é que só pede o bilhete a ele?
O pequeno, ligeiro, erro de português encantou-me de sobremaneira. Ela era uma mulher maravilhosa. Beijei-a repetidamente e, com a intenção de serenar o violento olhar que ela pousava no pica, disse-lhe:
- Deixa estar, querida. Estes...não sabem o que fazem, as suas vidas são sem sentido e aproveitam-se dos pobres para lucrarem, mas nem sequer têm inteligência para ganhar.
Disse a primeira parte da frase muito alta, para o pica ouvir, e a segunda parte de forma sussurrada para a minha linda amiga não perceber nada do que eu dizia, o que a deveria deixar surpreendida e encantada com o mistério que eu libertava. O pica saiu, derrotado, e eu segui com um novo amor conquistado, graças à sua maldade aliada à sua incompetência. Em que estação eu e a minha Anabela saímos fica para uma outra altura contar...

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