quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Gosto (63)

Gosto daquilo a que chamo 'um céu de incêndio'. Claro que não gosto de saber que, algures nas redondezas, há uma linda floresta com maravilhosas árvores a morrerem cruelmente, queimadas, consumidas por um fogo intempestivo, mas o fumo que sobe aos céus no momento da incineração das pobres árvores forma uma espécie de cortina à frente do sol que funciona como os filtros que se colocam à frente dos projectores que iluminam as filmagens para dar à cena um aspecto mais adequado com o que se está a passar naquele momento do filme e com o que o realizador quer transmitir ao espectador. Esse fumo transforma a luz do sol e converte-a numa luz ainda mais quente, alaranjada em vez do tom amarelo habitual e eu adoro essa cor, essa luz, por isso, contemplar paisagens com essa iluminação, dá-me um enorme prazer e posso ficar horas a ver essas cores caírem nas casas e nos caminhos. Quando o fumo é muito escuro dá à atmosfera um tom sombrio que também aprecio sobremaneira. Até nem desgosto do cheiro a queimado. Certo dia, o meu amigo e excelente realizador romeno Ivos Strapunaris, deitou fogo a uma floresta perto de Târgu Mureș para assim criar a iluminação perfeita para a cena que pretendia filmar no seu filme sobre o abandono de crianças na Roménia. Como ninguém da sua equipa se ofereceu para queimar a floresta, o Ivos teve de ir, ele próprio, atear o fogo, deixando instruções claras ao assistente de realização sobre como deveria filmar a cena, uma vez que se passava a mais de trinta quilómetros do local. Mal lhe pareceu que o fogo ia pegar bem, arrancou no seu carro a uma velocidade louca para o local de filmagens com o intuito de dirigir ainda três ou quatro 'takes'. Quando o fogo atingiu proporções consideráveis e ele achou que já tinha conseguido bom material, voltou para o local do fogo e ajudou muito os bombeiros a combaterem as chamas, entregando-se às autoridades depois do fogo estar extinto, tendo sido condenado a uma pena de prisão de 2 meses. Eu acho a sua atitude um pouco irresponsável e condenável, mas percebo o homem, o artista que exige a perfeição de si e da sua obra. Infelizmente, até esta hora, o filme ainda não foi concluído, porque o Ivos acha que ainda não está suficientemente bom. 'Tantos hectares ardidos para tão pouca excelência cinematográfica...', costumo dizer-lhe quando falamos, ainda que reconheça que, de facto, os planos filmados pelo Ivos sob o 'céu de incêndio' têm uma beleza assombrosa.

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