domingo, 7 de agosto de 2016

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (18 de Fevereiro de 2012)

Enquanto acompanhava um jogo de futebol num café apareceu uma senhora com todo o aspecto de ser uma dessas pregadoras ambulantes que impingem ideias religiosas aos transeuntes que se cruzam com elas, espalhando principalmente o “testemunho de Jeová” e o evangelismo. Era uma mulher com cerca de 60 anos de cabelo branco e com óculos, com uma jovialidade irritante e com uma resma de revistas que pousou numa das mesas enquanto cumprimentava o senhor do bar e fazia observações pseudo-graciosas sobre o jogo e algumas coisas no café. A princípio ignorei-a e não descolei os meus olhos do jogo, porque estas pessoas normalmente causam-me uma grande repulsa, por isso evito ser abordado por elas, porém, a certa altura olhei para as revistas que ela tinha posto nas mesas porque a palavra escrita interessa-me sempre, ainda que a mensagem verse sobre coisas que não me interessam. Para meu grande espanto, entre as revistas estava aquilo que me pareceu ser um livro “normal”, um romance, mais particularmente uma daquelas edições de compilação da obra de um autor. Rodei a cabeça para ler o nome do escritor gravado a letras douradas e fiquei muito surpreendido quando li “Musil”. “Esta senhora, que me pareceu ser uma dessas imbecis que andam na rua a impingir ideias que nem sequer entendem, está a ler Robert Musil, autor de O Homem sem Qualidades e O Jovem Törless”. Completamente embasbacado olhei novamente para ela e para as outras revistas que trazia com ela, que eram, de facto, religiosas, tinham questões existenciais que Deus e os seus santos unidos resolviam na página 15 e imagens de famílias unidas brincando com um cão. Olhei para a senhora e a sua superficialidade não se coadunava definitivamente com aquele livro. Durante cerca de 30 segundos admirei-a imenso, pensando no que podia levar uma mulher que lê Musil e reflecte sobre grandes questões a andar na rua a vender ideias tolas de Deus a quem passa. É muito raro ver pessoas muito religiosas a lerem coisas que nada tenham a ver com religião e que, por vezes, até a podem contrariar. É-me difícil descrever a veneração com que olhei para ela. No meu pensamento comparava-a a uma  campeã da pregação, que certamente apresentaria argumentos bastante sólidos para sustentar as suas teorias. Preparava-me para a cumprimentar com a intenção de conversarmos um pouco sobre religião e sobre a sua ideia de Deus, mas antes lancei uma última olhada ao livro de Robert Musil, para tentar ver de qual das suas obras se tratava ou se era mesmo uma compilação. Olhei para o grosso livro com uma clássica lombada azul e as letras douradas que diziam “Musil” converteram-se para “Missal”. Ah, o Mundo voltou a girar nos seus eixos, uma vez que a minha teoria de que os religiosos só leêm coisas de religião foi confirmada. 

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