segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Gosto (66) P

Gosto de espevitar temores adormecidos nos meus amigos, de os assustar e de lhes provocar um medo que, não raras vezes, toma proporções sobrenaturais. Lembrei-me de escrever sobre isto quando lia 'A Ponte no Rio Drina', mais especificamente a parte em que Ivo Andrić narra a forma como os meninos da cidade de Višegrado lidam com a lenda do Mouro Negro, que estará aprisionado numa das bases da ponte cuja história é contada no livro. Nessa base há um buraco por onde se pode espreitar para o interior e quem vislumbrar o Mouro morre instantaneamente. Uma ou outra criança mais brincalhona e pouco dada a superstições, finge ter visto o homem e começa a gritar 'o Mouro, o Mouro!' e larga a correr pela margem fora, assustando os outros e "assim estraga o jogo e provoca desilusão e indignação àqueles que gostam de jogos de fantasias, odeiam a ironia e acreditam que, ao olharem intensamente, podem realmente ver e viver alguma coisa", como escreve o autor no seu excelente livro. Esta história fez-me lembrar aquelas vezes quando eu passeava por florestas e lugares ermos à noite com os meus amigos e eles seguiam com algum receio enquanto eu estava totalmente sereno e seguro de que nada perturbaria o meu passo confiante. Na sua imaginação poderia surgir de qualquer parte um animal perigoso de grande porte, ainda que estivéssemos em lugares em que eles não existiam, ou malvadas bruxas prontas para os enfeitiçar. Então eu, sabendo dos seus estúpidos temores e algo revoltado por causa deles, pegava em pedras ou paus do chão, sem que eles me vissem, imerso na total escuridão e lançava-os para um lugar cercano daquele em que eles caminhavam. Não apenas o barulho, mas também o estremecer de terras na sua proximidade, causava neles um profundo pavor e eu podia repetir o número três ou quatro vezes até eles perceberem que era eu que estava a lançar as pedras. Depois ria-me muito com a sua falta de presença de espírito. Estas brincadeiras são uma derivação de algo que eu gosto muito de fazer que é enganar e mentir. Como acho que o medo pode desempenhar um papel educativo, contei várias histórias aterradoras ao meu filho Sancho, como por exemplo que conhecia pessoalmente o Homem do Saco e que tinha o número dele no telemóvel, chegando mesmo a mostrar-lho, ou que uma vez um menino tinha comido uma semente de melancia e esta tinha crescido na sua barriga, que inchou, inchou até que o menino rebentou. Ele gostava muito de melancia, mas, como é habitual nas crianças, não tinha paciência para lhe tirar os caroços, por isso contei-lhe esta história e ele passou a ser mais cuidadoso. Gosto muito mais quando as pessoas que tento enganar mantêm a calma total durante a ameaça ou simplesmente se riem daquilo que eu disse. Quando elas reagem com indiferença percebo que estou na presença de alguém com muita experiência, uma pessoa vivida, que não se deixa alterar com duas tretas, com esta atitude, estas pessoas mostram uma grande personalidade. Quando os papéis se invertem e sou eu o alvo de um amigo brincalhão, não só não me assusto e mantenho a calma, como também lhe lanço um longo olhar penetrante com os olhos semicerrados e incrédulos acompanhado por um sorriso jocoso, como que dizendo 'nem acredito que me tentaste meter essa peta, camarada'.

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