quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (6 de Setembro de 2016) (P)

Mais um ano passou e com este já lá vão cinquenta e sete voltas ao sol. Cinquenta e sete voltas ao astro e ainda há tantas coisas que tenho de fazer debaixo dele! Quando um dia acaba sinto sempre que o perdi irremediavelmente, que o desperdicei, que gastei mais uma vez o meu tempo a fazer e a pensar em coisas menores, a degradar a minha filosofia de vida e a minha forma de ver o mundo a trabalhar para que terceiros lucrem com o meu esforço, a cansar-me para que outros tirem benefícios disso, a suar e a sangrar para que Dinossáurios de Biblioteca bebam deleitados as excreções do meu empenho, a ver as minhas oportunidades de liberdade passarem a correr nas ruas movimentadas enquanto fumo infindáveis cigarros à janela do meu prédio, a pensar mais no que devia fazer do que a fazer realmente o que devo fazer, a planear uma viagem nunca concretizada a África, a ler notícias que nada interessam e a perder o meu tempo pensando nelas, a ler livros e a estudar filosofias gastas, a ver filmes sem importância cujo enredo é óbvio e desinteressante, a ouvir músicas cujos versos são simples de adivinhar através das rimas fáceis de poetas inconscientes, mas, acima de tudo, a gastar os meus dias sempre na mesma zona, a fazer as mesmas viagens distribuindo bens alimentícios entre Novi Sad e Paraćin ou Subotica. Estou a ficar um pouco farto da Sérvia. Já cá estou há alguns meses e aprendi o suficiente, agora é tempo de ir para novas paragens. Recentemente descobri que "esperança" em sérvio se diz "nada". Achei tristemente poético. Aqui e em todo o lado esperança é nada e nada é esperança. Todos os dias são iguais e há tanto que ainda não fiz. Os ataques de nacionalistas em Belgrado que não suportam estrangeiros nem sequer é o que me preocupa mais. Em Novi Sad nunca tive problemas, mas, quando vou à capital, lido bem com os seus insultos infantis e cobardes, só que não consigo ficar muito tempo no mesmo sítio, estou a pensar ir-me embora e, ainda por cima, há tantas coisas para fazer neste mundo louco... O demente crescimento do nacionalismo no leste europeu faz com que gostasse de ser um assassino em série com alvos bem definidos em Belgrado ou em Budapeste, mas também gostava de ser o chefe de uma família eslava de Trieste com um negócio de venda de móveis clássicos que tem vindo a passar de geração em geração, e, agora, lida corajosamente com a concorrência capitalista e criminosa do IKEA sem desvirtuar o que tornou único e famoso o negócio familiar, contudo também gostava de ser vagabundo livre cruzando as noites sob céus distintos, por vezes ameaçadores, por vezes acolhedores, mas também gostava de ser um mineiro siberiano trabalhando arduamente para sustentar a minha família ou um camponês chinês trabalhando os campos de arroz com a água pelos tornozelos, ou um aguadeiro no deserto saciando a sede de peregrinos.
Enquanto odeio o suicídio não consigo deixar de querer suicidar-me lançando-me nas fortes correntes do Danúbio em Bratislava ou em Budapeste, mas também quero suicidar-me lançando-me algures na Antártica e assim sofreria menos, uma vez que as águas estariam geladas. Contudo também gostava de me matar de forma mais imediata, trágica e espampanante com um tiro nos miolos, mas também gostava de morrer lentamente sem agonias, numa cama de hospital em que me enchem de drogas para atenuar as dores e eu entro no reino eterno da morte rodeado de toda a minha família e amigos que, vendo-me morrer, me dedicam um amor e uma pena exacerbados. Porém quando penso nesta morte cobarde tenho vontade de me sacrificar morrendo por um ideal, levando comigo um famoso criminoso, um líder mundial assassino, um ditador sempre rodeado de perigosos seguranças, enfim de morrer matando o mal e exterminando um pouco de crueldade.
Nem todas as vidas de pessoas de todas as gerações conseguiriam cobrir tudo aquilo que quero, tudo aquilo que preciso de fazer para me sentir minimamente realizado; o meu sonho será sempre um sonho por cumprir, um ideal inalcançável: ter as vidas todas numa vida apenas.

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