quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (12 de Junho de 2016)

Hoje acordei em Szeged no sul da Hungria, depois de ter chegado ontem por volta das 23 horas. Ainda saí para a louca noite húngara e não me arrependi porque vi coisas incríveis como danças sem fim na lama, saias subidas para cima para que se vissem as cuecas, um pénis erecto e uma rapariga de volta dele, um ouriço cacheiro iluminado pela luz branca de um telemóvel e duas mulheres a dirigirem-se a mim em húngaro com vozes que pareciam sedutoras. Deitei-me muito tarde, por volta das 4 da manhã, mas hoje consegui acordar às 8 para conhecer a cidade antes de apanhar o autocarro para Subotica, na Sérvia, onde combinei estar hoje à tarde com uma amiga minha.

Enquanto explorava as cercanias da linda Igreja de Szeged em busca de bons ângulos para a contemplar, encontrei o Panteão da Universidade, onde estão dezenas de estátuas de antigos alunos ilustres. Foi com um misto de espanto e nojo que caminhei pela galeria entre as estátuas de físicos, escritores, biólogos e bioquímicos, entre estudiosos de outras áreas. Senti-me enojado porque muitas das estátuas estavam cheias de merda de pombo e não parecia que ninguém se preocupasse muito com isso.

Será que estas estátuas provam um grande desrespeito pelo passado? Até as obras que esculpimos para recordar os heróis votamos ao esquecimento, quanto mais os heróis nelas representados.

P.S.: Este é um diário de 5 de Junho escrito maioritariamente em finais de Outubro a partir de um pequeno rascunho feito durante a viagem de autocarro de Szeged a Subotica. Tive de reescrevê-lo enquanto montava o filme "Homens de Sucesso, As Estátuas em Vossa Homenagem Serão Violentamente Defecadas por Pombas com Problemas Intestinais", para me ajudar a organizar as ideias e a recordar melhor esse dia. Neste momento ainda não sei se o filme terá narração em off, mas, se tiver, será algo tirado deste texto em que reflicto sobre as estátuas cheias de merda e a tento relacionar com a decadência húngara. Uma das minhas descrições de Budapeste diz que a capital húngara tem uma "monumentalidade desolada". Acho que vou tentar pôr no filme essa ideia de um império em queda, invocando a riqueza do passado, comparando-a com o estado actual das coisas em que até as estátuas em homenagem a mentes brilhantes do passado são votadas ao esquecimento e passam semanas e meses cheias de merda.

25 de Outubro dia da narração.
Escolho as entre as palavras escritas as que melhor contam a história das imundas estátuas.
Passeava em Szeged encaixa no estilo diários lunáticos, por isso será boa opção, contudo o actor que narra os meus filmes não consegue dar a entoação precisa, de alguém que anda como eu ando e como quero retratar na situação, uma pessoa sem preocupações, livre e a voz do gajo não está nada no tom certo.

26 de Outubro dia da narração 2
Junto à Igreja encontra-se o Panteão da Universidade de Szeged com estátuas de antigos alunos ilustres. É com um misto de nojo e espanto que se percorrem as Galerias com homenagens esquecidas, memórias humilhadas.

O estado de degradação a que chegaram estas estátuas faz reflectir no estado actual da nação húngara. Grande derrotado da Primeira Guerra Mundial, o Império Aústro-Húngaro desapareceu e desde então os magiares parecem andar à deriva, de decepção em decepção. Primeiro os nazis tomaram Budapeste e massacraram os judeus, lançando-os no Danúbio, depois os soviéticos tomaram Budapeste e trouxeram o regime comunista. Hoje em dia parece haver um grande sentimento de melancolia por um passado glorioso, de que resta apenas uma Monumentalidade Desolada, que se sente em Budapeste, como se o requinte tivesse sido tomado pela selvajaria e pela loucura.

27 de Outubro - Conclusão

Não posso olhar para o filme de outra forma a não ser mais um desastre de um amador. A certa altura cansei-me do filme e perdi todo o amor que tinha por ele. A falta de uma boa narração também me lixou. Fica um grande desapontamento num filme que eu vinha planeando há muito e desejando fazer uma boa coisa. Agora resta apenas o filme dos cemitérios... Eu vou manter as fortes imagens das estátuas cagadas, sem saber bem o que posso fazer com elas. Eu queria fazer uma espécie de testamento político, mas quem sou eu para fazer isso tipo de avaliações e comparações? Não me posso dar a tanto porque tenho medo de incorrer em verdades. E isso é pouco do que eu quero, nada do que eu quero, mas também nunca consigo relatar uma fantasia, como me disse o Alfredo no outro dia. Não invento nada quando escrevo, pois sim...

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