domingo, 6 de novembro de 2016

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (6 de Novembro de 2016)

Enquanto regressava a casa depois de ter ido ver o jogo do Benfica contra o Porto em casa de uns amigos meus aqui em Cracóvia, pensava no quão cínico era o futebol e quão pouco concebível era a alegria que eu não conseguia esconder. Caminhava numa zona suburbana desta cidade polaca e nem o ar pouco amistoso com que as pessoas me encaravam naquele lugar em que não costumam aparecer estrangeiros fazia com que eu perdesse o sorriso que tinha na cara e com que brindava quem quer que comigo se cruzasse. O Carlos e o Tiago ficaram duas raivas e ideias fixas antagónicas. Eu não tomei posição nenhuma, só estava feliz por o Benfica ter "ganho". O Carlos defendia a tese de que o Benfica não tinha jogado nada e que eles mereciam perder "que era para aprenderem". Não tinham feito nada o jogo todo, não tinham tido atitude, não tinham jogado à Benfica. O Tiago dizia que isso não interessava, que jogar bem não era tudo, às vezes as equipas têm de ser manhosas para emaranhar o adversário numa doce teia, uma doce teia que o adormecia. Neste momento ele estava a divagar e eu interrompi-o, para o ajudar no seu argumento inicial, falando da minha teoria do instante no futebol. Expliquei-lhe que, de todos os desportos que eu conhecia, o futebol é aquele em que o instante é mais determinante. Um segundo pode mudar tudo e um golo pode ser mais precioso que cem outros golos. Ele concordou comigo e falou, dirigindo-se principalmente ao Carlos "Claro. Lembra-me do Éder, ele agora tem crédito para mil falhanços. Ainda te lembras como fomos campeões da Europa?". O Carlos começou a falar sobre não ser bonito jogar assim e de ele gostar que o Benfica jogue bem e esteja sempre em cima do adversário a controlar o jogo e continuaram naquela discussão durante mais de cinco minutos, tempo que eu aproveitei para rever os golos enquanto me desligava da sua conversa. Vi o golo fortuito nascido de um canto fortuito apenas concedido ao Benfica por estupidez do jogador recém-entrado Herrera, que chutou a bola contra um jogador do Benfica com o intuito de que ela batesse nela para sair para ganhar um lançamento numa zona próxima da área portista, um gesto técnico que se costuma ver nos jogos da garotada ou nos solteiros contra casados, quando um tipo qualquer tem vontade de mandar um balázio contra um cunhado gordo. Depois do seu erro clamoroso a realização do jogo focou-se nele e ele estava a sorrir. Não sei porquê isso deu-me confiança para o canto e a bola acabou por entrar mesmo depois de uma excelente cabeçada do Lisandro Lopéz a cruzamento certeiro de André Horta. Foi um momento de pura exaltação. O meu coração ficou aos saltos de puro contentamento, parecia que a vida fazia mais sentido e que tinha valido mesmo a pena ver o jogo. O futebol consegue mexer tanto na nossa emoção que me mantenho febril e cheio de energia, apesar da noite gelada de Cracóvia e de estar rodeado de pessoas hostis.

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