sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Não Gosto (55) P

Tenho um horror profundo a ter tecido colado a uma ferida. Há alguns anos, numa disputa de bola durante uma futebolada num relvado sintético com os meus amigos, fiz uma grande ferida na perna, que ia quase do joelho ao pé e, mais tarde, enquanto dormia, ela colou-se aos lençóis da minha cama. Fiquei agoniado quando reparei que além da ferida me estar a doer terrivelmente, arrastava com ela o lençol da cama. Arrancá-lo da minha perna causou-me tanta dor, que o meu estômago ainda se contrai sempre que recordo esse gesto. A princípio estava a fazê-lo lentamente, com uma expressão de puro sofrimento no meu rosto, olhos faiscantes com inevitáveis lágrimas e dentes cerrados, mas a certa altura decidi literalmente arrancar o mal pela raiz e fiz um desesperado gesto rápido que foi acompanhado de um urro descomunal que saiu das profundezas das minhas goelas, subiu ao último andar do prédio em que dormia e desceu até às catacumbas do Diabo juntando-se ao horrível coro infernal, o choro sádico dos eternamente martirizados. Quando puxei o tecido senti que estava a puxar a minha pele e a minha carne e que ambas iam sair, deixando à vista a minha tíbia branca. Graças à maravilha que é a máquina humana, isso não sucedeu, mas não tenho dúvidas de que será sempre um dos momentos mais fisicamente agonizantes da minha vida. Claro que esta dor não tem nada a ver com aquelas dores silenciosas de que se faz a poesia. 

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