segunda-feira, 17 de abril de 2017

Comiseração (54) P

Risquei o número 47, apesar de não havia nenhuma razão para riscar o número 47 daquele boletim de Bingo. Neste jogo, os jogadores, concentrados no som e no ecrã, vão riscando os números à medida que eles saem para terem uma noção dos que faltam para completarem o seu cartão e então poderem reclamar o prémio com alegria jubilosa. Com a saída do número 47, todos os números que estavam no meu cartão tinham saído, estavam todos riscadinhos e há quatro bolas que eu aguardava ansiosamente a saída da bola nº 47, mas, em vez de gritar "BINGO", eu risquei placidamente o último número do cartão, preenchendo-o completamente, num dos muitos gestos irrelevantes da minha vida, um daqueles gestos que eu estou sempre a fazer e que servem apenas para deixar para mais tarde aquilo que deve realmente ser feito, aquilo que eu preciso mesmo de fazer. É como se suspendesse o tempo enquanto me entrego ao doce adiamento da obrigação que, eu tenho sempre a certeza, mais cedo ou mais tarde acabarei por concretizar, com tranquilidade e cheio de tempo. Quando a bola seguinte saiu o silêncio geral manteve-se na sala e eu continuei incapaz de gritar "BINGO". Os jogadores continuavam riscando os seus cartões inclinados sobre a mesa na ampla sala, atentos às palavras da mulher que anunciava a saída das bolas e aos monitores electrónicos onde os números iam aparecendo. Eu estava terrivelmente angustiado, parecia que uma terrível força desconhecida me amordaçava a boca ou que uma esquelética mão gelada do Mal estava a apertar a minha garganta com tal arte que eu fiquei incapaz de produzir um som. Um peso absurdo alastrava-se no meu peito, como se a minha alma estivesse a ser bordejada por sombras e o seu centro estivesse a escurecer para um negro absoluto. Nesse centro estava um buraco negro que suga toda a minha emoção e me impossibilita de tomar qualquer decisão. Este é um buraco negro com o qual tenho de lidar e em relação ao qual já me habituei. Sei que ele surge de tempos a tempos, principalmente quando sou chamado a tomar decisões ou a fazer algo que chame a atenção de muita gente. Neste caso eu ia chamar a atenção de imensas pessoas. O meu grito de "BINGO" faria com que todas as cabeças se voltassem para mim algo enraivecidas e eu sei que nos seus olhos chisparia alguma ira misturada com inveja, porque eu não tinha nada que ganhar aquele jogo, o que raio me dava o direito de achar que podia ganhar contra tantos jogadores? Eu sou uma pessoa perseguida pelo azar, porque é que haveria de agora estar com sorte? Percebi que não tinha visto bem, que tinha assinalado mal os números que ouvira "oitenta e sete", mas a senhora dissera "setenta e sete", que tinha sido um erro meu. Olhei para o ecrã gigante e constatei que o "oitenta e sete" saíra mesmo. Então comecei a percorrer o ecrã electrónico com a indicação de todos os números que tinham saído e fui comparando com o meu boletim, enquanto o meu estômago se contraía mais e mais e eu ia suando em bica por causa da angústia que sentia. Tudo estava a bater certo, mas, quando já tinha verificado mais de três quartos do boletim, alguém se antecipou a mim e gritou "BINGO!", cheio de força e felicidade, cheio de confiança e efusividade. Esse grito penetrou a minha alma como um doloroso punhal e eu senti algo a desabar.

Nadir Veld

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