quarta-feira, 10 de maio de 2017

O Meu Poder (6) P

Por vezes tenho o poder de invocar relâmpagos e trovões. Isto não se trata de uma coisa que eu consiga fazer sempre, está mais que provado que nem sempre que eu quero que caía um trovão acabe por cair um trovão, mas a única vez que eu fui confrontado com a obrigação de provocar um trovão, consegui provocá-lo bradando aos céus para que ele surgisse. Estava na Roménia nas rodagens de um filme do meu grande amigo Ivos Strapunaris sobre uma pobre família da região dos Cárpatos e chovia a cântaros num dia em que já tinha havido alguns trovões, contudo nenhum desses trovões tinha sido captado pela câmara de filmar. O plano que filmávamos mostrava essa família a transportar um caixão com o cadáver da avó para uma aldeia vizinha com o intuito de a enterrarem lá, uma vez que não havia cemitério no triste e abandonado lugar em que viviam. Era um plano lento, muito fúnebre e violento. A família era fustigada pela intempérie e as crianças quase que voavam levadas pelo vento. As gigantes montanhas que se avistavam lá ao fundo conferiam uma beleza única a esse plano que só tinha esse problema de não ter um trovão. Eu percebi que o Ivos estava a ficar frustrado por não conseguir filmá-lo e comecei também eu a pedir aos céus que ele surgisse. Numa das pausas, enquanto a equipa se alimentava e os actores se secavam um bocado, surgiu um relâmpago e o Ivos explodiu numa fúria incontrolável, soltando todo o tipo de impropérios, insultando-se a si próprio por ter parado de filmar naquele momento. Passados 15 minutos voltámos ao trabalho e filmámos três frustrantes planos, sendo que num deles o caixão até escorregou das mãos dos carregadores. Quando já toda a gente estava com vontade de desistir eu gritei em português para os céus "Veja se manda o caralho de um trovão agora, seu filho da puta". Meu dito, meu feito. A câmara começou a filmar e passados vinte segundos um clarão luminoso rasgou os céus com sumptuosa beleza e foi seguido por um rugido tremendo que ribombou pelas montanhas, um fragor com tal violência que só podia provir de um Deus irado protestando na imensidão das negras nuvens. O som do trovão durou muito tempo, cerca de trinta segundos, e é ainda hoje dos mais belos trovões que eu me lembro de ouvir, o seu som subia e descia e voltava quando parecia estar a morrer. Quinze segundos depois de o som cessar de ecoar pelas montanhas o Ivos Strapunaris gritou "CORTA!" e na sua voz vibrava uma alegria indescritível. Ele correu para mim e abraçou-me, elevando-me nos ares, enquanto dizia a todas as pessoas que o trabalho do dia estava terminado, que agora era só arrumar as coisas e voltar à Base.

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