quarta-feira, 14 de março de 2018

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (Gritaria da Velha Roubada)


Gritaria da Velha Roubada, Zenit Saphyr



Há dois ou três meses gravei uma velha aos gritos na Graça em Lisboa. Ouvi-a a gritar ao longe e preparei o meu telemóvel para gravar o que ela dizia. Encontrei-a numa rua estreita por um mero acaso e em circunstâncias bastante curiosas, enquanto subia a colina em direcção à casa de uns amigos. Estive até às seis da manhã nas discotecas e depois saí com uma mulher, estive com ela até às 8 da manhã, depois ela foi-se embora e eu fui para o Adamastor para ver o amanhecer tranquilamente e fumar um baseado com a tristeza daquele amor derrotado. Estavam lá uns alemães que me deram MDMA e eu fiquei muito vivo, cheio de energia, desejoso de conversar. Estive com eles até às 9. Eram uns
graffiters que tinham passado a noite a encher as paredes das ruas de Lisboa com desenhos dos nomes estilizados de bandas de hip-hop de Frankfurt, de onde eram. Mostraram-me as suas técnicas e cantaram-me alguns poemas germânicos. Gostei de os ouvir. Com os olhos em chamas e a alma cheia de energia desci até aos Restauradores onde estava a decorrer uma corrida. A linha de chegada estava mesmo no fim da Avenida da Liberdade, quando ela desemboca na Praça dos Restauradores. Fiquei lá a ver os corredores orgulhosos a passarem a linha de meta com um sorriso de dever cumprido e as suas musculosas pernas peludas e também algo flácidas envelhecidas por corridas e pelo sol. Fiquei mais de meia hora colado neles, vendo-os chegar cheios de uma satisfação impagável para a qual muito tiveram de lutar. Conversavam uns com os outros descontraidamente e com um respeito mútuo exagerado. Os seus sorrisos eram forçados e residia neles alguma frustração por não terem feito um tempo bem melhor do que aquela pessoa com que falavam. Ressentidos, viam-se num pódio inalcançável só para serem melhores que as pessoas que lhes eram vagamente conhecidas. As mulheres não chamavam a minha atenção. Estavam a pé demasiado cedo para me despertarem o interesse, porque todas aquelas pessoas eram madrugadoras e cumpridoras de rígidos horários. As suas carnes flácidas bamboleavam-se tristemente para fora do seu fato pouco convidativo. Um gigantesco relógio digital era visível em vários pontos na exuberante estrutura vermelha em que a publicidade estava distribuída, mas ainda assim a maior parte dos corredores trazia o seu próprio relógio em modo cronómetro e parava-o mal passava a meta, carregando no pequeno botão digital com um movimento rápido, consultando de seguida o tempo feito, não confiando no relógio digital que os organizadores da prova disponibilizaram para os corredores. Eu fiquei por ali espiando os seus gestos durante bastante tempo. Mergulhei em todos os seus passos e tentei sentir toda a felicidade de cada um dos corredores que cruzava a meta e parabenizava-os com emoção batendo palmas e gritando alegres palavras de ordem. Um bêbedo com insónias estava lá curvado contra a estrutura e pensava em dormir enquanto me chamava a atenção para as raparigas desinteressantes que iam chegando com uma perversa voz doentia entre o sono e a vida. Fui-me embora dali e a primeira coisa que vi quando cheguei à Praça do Rossio foi um cigano a roubar a carteira a um velhote com ar britânico. Fiquei tão estupefacto e estava tão pedrado que não fui capaz de fazer nada, vi simplesmente o roubo e deixei que o ladrão se afastasse com o seu ganho, enquanto o turista seguiu sem dizer ai nem ui, ele nem tossiu nem mugiu, só se deve ter apercebido da falta da carteira quando chegou ao Hotel para beber um ginger ale fresco na manhã quente. Andei a deambular pelo centro durante duas horas. Estive na Fnac a ler durante uma hora e devo ter terminado algum livro e lido partes curtas de 300 outros. Fui ao Centro Comercial do Chiado e alimentei-me com os restos que as pessoas deixavam nas mesas comuns da zona da Restauração. Um resto de um hambúrguer do McDonalds, um pouquinho de deliciosa picanha mal passada do Chimarrão, batatas fritas de ambos os sítios, já moles e frias, uma salada com couve roxa da qual só comi um pouco porque não havia muito mais sobras e um restinho de sopa para saciar todas as possíveis fomes. Quando fiquei cheio saí do Centro Comercial surpreendido por ainda continuar com a percepção tão alterada. Normalmente comer faz-me ficar sóbrio, mas isso não aconteceu desta vez. Via todas as coisas com uma profundeza anormal, a realidade aparecia-me como uma coisa angulosa, difícil de tocar. Eu compreendia coisas cem vezes mais depressa do que o normal. Um cheiro particular anunciava-me uma pessoa na distância. As mulheres soltavam mais calor do que normalmente e eu tinha de me afastar quando elas passavam, só para não ferver num inacabável desejo. Por volta das 14 horas decidi ir ter com um amigo meu à Graça. Tinha que andar muito, mas também não estava com vontade de ir para casa, por isso segui sem medo para mais um longo passeio por ruas raras e novos caminhos sempre descobertos em todas as circunstâncias. Eu estou sempre a descobrir caminhos que tomo para depois voltar de novo atrás e partir numa outra direcção um pouco antes de chegar ao ponto de onde originalmente partira. Sempre entre caminhos, por isso tomar mais este não ia fazer diferença nenhuma e foi então, por volta das 15 horas que eu a ouvi. A velha gritava como uma desalmada a duzentos metros de mim. O seu uivo ressoava pela escadaria abaixo e chegava até mim adulterado. Mal percebi que aquela senhora falava com aquele típico tom engraçado de senhoras já idosas que estão meio desorientadas, entrei em acção. Pus o telemóvel a gravar e acelerei escadas acima. Quando alcancei a senhora gritante eu estava ofegante. Isso nota-se quando eu lhe digo “tenha calma”. Se eu não estivesse ébrio essa frase não me sairia tão brilhante. Naqueles 35 segundos que decorreram entre eu pôr o telemóvel a gravar e chegar ao pé da velha tive de pensar na melhor frase que poderia dizer para ela me contar toda a história, porque eu, no ponto em que estava da consciência, queria saber toda a história. Eu queria saber tudo. Por que raio é que aquela velha estava ali a gritar na rua, por que raio é que estava de muletas e tinha uma voz tão azeda quanto raivosa, quem lhe tinha feito mal para que assim procedesse, haveria algo que eu pudesse fazer por ela para lhe melhorar a sorte? Todas estas perguntas passaram pela minha cabeça enquanto me aproximava dela, mas ganhava na minha consciência a ideia que me estava a aproveitar dela e que, no fundo eu não passava de uma pessoa maldosa a tentar tirar proveito de uma senhora alucinada e talvez doente que não sabe o que diz só para me rir e provocar gargalhadas nos meus amigos quando lhes contasse a história da velha louca que gritava na rua as agruras malditas da sua vida, qual fadista sem guitarra numa rua desolada de Lisboa, abandonada por todos os que alguma vez a poderiam ter querido bem, abandonada devido à sua perfídia e malvadez intrínseca que não poderia estar ausente de uma mulher criada nos bairros pobres lisboetas, rodeada de ignorância e preconceito. A certa altura também pensei que as suas frases poderiam servir-me como um testemunho do mundo, um testemunho de um pensar, um testemunho de uma vida. Pode ser que daqui a cem anos nada mais sobre dessa senhora a não ser esse áudio maldito em que ela maldisse todos os seus entes queridos e se lamentou da tristeza da sua vida. A sua campa de mármore será removida e quebrada, trocada por outra na Primavera das Mortes Futuras. Lentamente, os novos mortos vão-se aproximando dos cemitérios e, já zombies, adormecem em macias camas para a eternidade. É muito interessante eu não ter filmado a senhora e sobrar-me apenas um registo áudio do seu discurso desconexo. Se eu tivesse uma filmagem da sua cara enquanto ela dizia estas coisas seria um vídeo demasiado fácil e agressivo. Seria como uma dessas reportagens televisivas em que os jornalistas têm a sorte de descobrir uma testemunha ocular que por acaso é uma pessoa bastante perturbada e conta o sucedido de forma muito rocambolesca, provocando gargalhadas por causa dos seus erros de português, da sua ignorância e de pequenos pormenores linguísticos caricatos. Esta senhora que eu gravei tem dois pormenores linguísticos curiosos. Quando ela diz “anda a ensonar os ouvidos à mãe” está a usar uma expressão que eu desconhecia totalmente. É uma frase que não ouvi nem li em nenhuma outra circunstância, ainda que todas as palavras sejam comuns. Simplesmente nunca ouvi essas palavras distribuídas numa frase de modo a provocar essa expressão. “Ensonar os ouvidos”. Bastante metafórico. Através de doces e ardilosas melodias, a sua neta está a entorpecer o cérebro da sua mãe de modo a convencer esta a fazer algo que a avó não quer que seja feita. Nunca se percebe ao certo o que é, porque o seu discurso é vago e completamente descontrolado. A senhora está absolutamente furiosa. Nem sequer se percebe bem por quê, se ela chegou mesmo a dar pela falta de alguma coisa ou se tudo o que tem são suspeitas. Entre os seus gritos ela não fala em nenhum objecto desaparecido, o que torna estranho o título que eu dei ao filme “Gritaria da Velha Roubada”. Nem sequer há certezas que ela tenha mesmo sido roubada. Tudo o que ela diz é que uma porta ficava aberta durante o dia…com o trinco e que ela podia acusar a neta de “ter roubado de lá alguma coisa”. Esse “alguma coisa” que ela usa várias vezes pode ser qualquer coisa como pode ser nada. Pode ser a mera suspeita de que algo desapareceu só porque ela voltou do hospital e se deparou com a porta aberta. Imagino que seja uma sensação perturbadora, voltar do hospital para casa e ver a porta aberta depois de ter passado todo aquele desconforto do espaço público do hospital. Quando se passa muito tempo num lugar em que a nossa privacidade nos é negada, o regresso à privacidade e à tranquilidade do lar é altamente antecipada, por isso é-me fácil de imaginar a fúria da mulher quando percebeu que a porta de sua casa estava aberta para toda a gente que tentasse lá entrar. Essa fúria subiu do seu peito até à sua cabeça e provocou uma reação química no seu cérebro que a deixou desconfiada e revoltada, gritando descontroladamente contra todas as pessoas de que se lembrava. Esta é apenas uma das muitas interpretações que se pode tirar da história que ela conta, muitas outras teorias são possíveis e passíveis de serem apresentadas. Qualquer pessoa pode ouvir uma história distinta e apanhar pormenores que me escaparam. Aos 43 segundos, por exemplo, não é claro o que a senhora quer dizer. “Uma neta minha que me aliciou o mês passado que eu tive um acidente em casa”. É uma frase estranhíssima, muito mal construída. A palavra aliciou não faz qualquer sentido aí. No filme eu disse que ela queria dizer “auxiliou” e a frase passaria a fazer sentido, mas ela diz claramente aliciou. A palavra “aliciou” tem uma conotação maldosa. Neste caso, se a neta a tivesse aliciado estaria a agir mal e cobardemente. Pode-se interpretar a frase como “ela aliciou-me e isso fez com que tivesse um acidente em casa”. Isso seria terrível e criminoso, mas não me parece que seja disso que ela fala, parece-me que ela quer dizer “auxiliou”, mas é incapaz de dizer uma coisa que seja para dizer bem da neta; todas as palavras que lhe tem reservadas são maldosas e guardam um rancor sem fim à sua atitude. A velha parece estar bastante ressabiada por a neta “se ter juntado com um preto”. Refere-o com amargura e depois diz que não é racista. Logo a seguir a dizer a palavra “preto”, uma palavra maldita da língua portuguesa. Ela desculpa-se de uma forma bastante cómica “eu não sou racista, mas agora chamei-lhe preto porque tenho motivos para isso”. Como se se pudesse não ser racista na generalidade das situações, mas, em certos casos, se pudesse usar de preconceito racial para rebaixar os outros. Ela admite que o termo é incorrecto porque se desculpa logo depois de o usar, contudo, no fim da conversa, ela usa duas vezes o termo “preto do caralho”, para logo de seguida pedir desculpa novamente, o que é muito cómico ambas as vezes. Na parte final da conversa ela pede mesmo desculpa, dizendo “desculpe lá, o senhor não me conheço, eu não o conheço a si, mas é a realidade das pessoas”. Esse pedido de desculpa soou-me algo esquizofrénico no momento em que eu o ouvi. Parecia que ela não conseguia controlar as coisas que dizia e os insultos iam saindo involuntários e cruéis da sua venenosa boca escancarada.
É interessante reparar quão silencioso eu me mantenho ao longo de toda esta “conversa”. A não ser um outro som de anuência relativamente ao que ela está a contar, eu nem sequer abro a boca. Deixo que o seu discurso flua como lhe convém que ela diga o que quer dizer sem contestação nem perguntas. Ela fala e nem me dá tempo para fazer perguntas. Suponho que não seja um bom jornalista ou então sou um jornalista extraordinário. Sei que não há meio termo para esta reportagem. As pessoas podem odiar-me por me aproveitar assim de uma velha louca, mas também me podem adorar por conseguir fazer humor com a sua maldade, porque esse é o objectivo do filme que fiz. Quando obtive aquela gravação fiquei muito feliz. Estava cansado e espantado pelas minhas forças. Tinha subido ao Alto da Graça depois de uma caminhada cansativa, depois de uma manhã cansativa, depois de uma estadia ébria no Adamastor, depois de uma cansativa conversa com uma mulher, depois de uma cansativa noite de enérgica dança nos bares e discotecas lisboetas, contudo as minhas pernas nunca falharam. Quando cheguei a casa do meu amigo afundei-me no seu sofá e uma serenidade imensa inundou a minha alma. Aquele conforto e aquela privacidade eram coisas por que ansiava há horas. Claro que podia ter ido para casa, mas regressar a casa às três da tarde depois de uma directa significava ir dormir bastante cedo e eu não gosto de dormir à tarde. O meu amigo trouxe-me uma refrescante cerveja que eu bebo sempre com grande prazer. Mostrei-lhe a gravação e os seus olhos arregalaram-se. Não pode conter uma gargalhada. Perguntou-me onde é que eu tinha gravado aquilo, mas, ao contrário de muitos outros amigos meus a quem mostrei a gravação, não me disse que eu não devia ter gravado a velha. Não me julgou. Achou apenas engraçado. Uma amiga minha disse que eu atraía maluquinhos, que eu era um íman de loucura. E é um pouco verdade. Sem que eu faça nada as pessoas perturbadas aproximam-se de mim e vêem em mim um amigo em quem podem confiar, alguém a quem podem contar os seus mais perturbadores segredos. Eles abrem-se e falam longamente das coisas que o lhes passam na cabeça e eu oiço-os, curioso, maravilhado. Eles devem captar essa minha curiosidade e acreditam ainda mais que estão certos, contando sempre histórias incríveis. O Rei das Bananas é um desses homens. Um artista que vende os seus desenhos na rua e com quem eu já me cruzei 40 ou 50 vezes. Não dá para fazer um filme com o Rei das Bananas, porque ele se tornou meu amigo, mas tenho a certeza que nunca mais me vou cruzar com essa velha que gravei. Mas se me cruzar vou-me lembrar, porque, apesar de ter dado trinta caras à velha no filme que fiz, recordo bem as suas feições. Era uma senhora baixa e curvada com uns óculos enormes e uma cara bastante enrugada e cinzenta e uns olhos cruéis. Foi por ela libertar uma aura um pouco maldosa que eu não tive medo de usar o seu testemunho para fazer uma comédia. Ainda por cima ela foi racista e isso é uma coisa que se deve denunciar e expor sempre que acontece, para que toda a gente veja a triste figura que algumas pessoas fazem quando se tentam justificar com algo tão vago como uma etnia.

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