quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Comiseração (60) (P)


Oh não, estas pessoas estão a tentar matar-me puxando temas de conversa para os quais devia estar preparado, mas, de facto, não estou, ou, pelo menos, não estou absolutamente seguro de todas as respostas e eu temo muito dizer a coisa errada, a coisa ao lado. Nunca aconteceu, mas é-me absolutamente insuportável alguém vir ter comigo e dizer “epá, aquilo que tu disseste ontem sobre aquele artigo que estava a bom preço em x lugar, vi-o a metade do preço ontem em y lugar!”. Ser-me-ia insuportável ouvir essas palavras de depreciação. Sentiria o nojo que as pessoas sentem por mim a lamber-me os braços e sujando-me com o seu muco contagioso. Sentir-me-ia tão envergonhado que teria de escavar ali mesmo um grande buraco para me enfiar em lágrimas. Por isso estas pessoas que vêm ter comigo com perguntas complexas deixam-me sempre deprimido e nervoso. Só tenho vontade de me ir embora de onde estou e ir estudar os livros todos, todas as hiperligações, estudar todo o problema para depois falar dele convenientemente. Não falo apenas de situações em que o nosso conhecimento em termos de cultura geral é exigido. Também em situações tensas da vida me vejo mudo e as palavras que devera dizer surgem-me apenas dias depois, a seguir a uma extensa reflexão. Oh, não, eu não estou pronto para o momento! Vivo congelado num passado que só descongela no futuro! Meu Deus! Não me mates, oferece-me um pouco de Presente…ou de imprevisibilidade. Imprevisibilidade comportamental, sim! Dá-me quatro sacos disso.

Nadir Veld

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