domingo, 20 de março de 2016

Gosto (57) P

Gosto de tirar fotografias nas linhas de caminho de ferro, principalmente se se estiver a aproximar um comboio e a imagem dele a vir em direção a mim, o eu fotógrafo, poder transmitir uma ideia de suicídio. Sinto uma intensa sensação de estar vivo sempre que enfrento a morte, que neste caso se acerca de mim na forma de um furioso monstro metálico a alta velocidade. Sempre que os maquinistas apitam, ao ver-me como um louco na linha em que circulam, apodera-se do meu coração um quase medo que o comprime. A adrenalina está em altas, o meu cérebro acelerado, tiro uma última foto e, salto da linha 10, 20 segundos antes da passagem do comboio pelo sítio onde estou. Sou corajoso, mas não sou maluco, não consigo aguentar-me lá até ao fim. A força do vento, que a passagem do comboio provoca, arrasta-me um pouco, apesar de eu estar deitado, como se me sugasse em direcção ao comboio e eu fico a pensar no pobre maquinista, quase assassino involuntário, no que ele achará da minha atitude e se me odiará. Já aconteceu maquinistas travarem a fundo, causando certamente perturbações no interior do comboio com a violência da travagem. Nestes casos, normalmente fujo envergonhado, embrenhando-me na floresta circundante, ou correndo como um perdido pela pradaria fora.

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