quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (30 de Agosto de 2016) (P)

À atenção dos meus amigos: nunca abram uma lata de cerveja acabada de cair ao chão, nem mesmo que se tenha furado e esteja a aspergir espuma ameaçadoramente. Hoje, quando ia a subir uma rua de Belgrado com o meu amigo Robert, segurando numa mão uma garrafa de cerveja que estava a beber e usando a outra para segurar duas outras cervejas que ele tinha ido comprar e os calções que me caíam por não ter cinto. Na minha última viagem emagreci muito devido a longos períodos sem comer e ainda não tive dinheiro para comprar um cinto. Segurar as duas latas de meio litro e os calções era um difícil equilibrismo, mas não quis dar parte fraca pedindo ao Robert que me levasse as latas de cerveja que me tinha acabado de oferecer, por isso continuei a andar e a beber da minha, que estava bem fresca e me sabia maravilhosamente na tarde quente, porém, a certa altura, possivelmente devido a um passo descuidado, as calças caíram-me quase até aos joelhos. Motivado pelo facto de estar sem roupa interior, fiz um desajeitado trejeito com a mão que tinha as duas latas de cerveja por encetar de maneira a subir os calções e tapar as minhas partes como convém na sociedade em que vivo. A outra mão manteve-se firme com a cerveja fresca, mas ao fazer aquele gesto com a outra mão, deixei cair ambas as cervejas, porém apenas uma delas 'rebentou' ao cair no alcatrão e começou a expelir espuma e cerveja como se fosse um spray. Não era uma grande quantidade, mas eu baixei-me rapidamente para ela e comecei a tentar diminuir o jacto tapando o buraco com um dedão, o que até estava a resultar, até o Robert me dizer 'open open' e fazer o gesto com o polegar de quem abre uma lata (ele fala muito mal inglês). Sobre esse momento não sei bem o que dizer, precipitei-me, talvez, mas não tenho desculpa; é indesculpável ter obedecido a tão estúpido conselho. Abri a lata e saiu tanta espuma e cerveja que aquilo mais parecia a erupção de um vulcão ou, usando uma imagem mais próxima da realidade, a abertura de uma garrafa de champanhe num evento comemorativo. Sobrou tão pouco da minha cerveja que eu bebi o que restava com um único trago, um pequeno trago que era tudo o que sobrava de meio litro de cerveja, um trago tão cheio de espuma que me pareceu que a cerveja estava viva na garganta, um trago tão desolado que me senti ridículo, impotente, estúpido. Amaldiçoei-me, mas não fui capaz de amaldiçoar o meu amigo Robert, porque o erro foi meu. Nunca se abre uma garrafa de cerveja agitada há pouco tempo.

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