quarta-feira, 27 de julho de 2016

Não Gosto (51) (PPP)

Detesto aquelas homens que se sentam ao pé de mim nas camionetas de longa distância quando há mais bancos livres e odeio particularmente este gordo que está sentado ao pé de mim enquanto escrevo. Possivelmente fazem-no para cumprir o número do lugar no seu bilhete, mas é inacreditável que continuem lá sentados quando há mais lugares livres. Mas...o que há de errado com estas pessoas? Não querem ir à janela? Preferem estar apertadas num banco durante duas horas em vez de estarem à larga em dois bancos...? E eu não me consigo ir embora sem o fazer levantar e sinto que poderia cair-lhe um bocado mal, era como se eu lhe dissesse, 'desculpe, não quero estar mais à sua beira, vou ali para trás, adeus, boa tarde'. Neste preciso momento estou encurralado por um gordo numa camioneta para o Porto, mas, ao menos, tenho um lugar à janela para ir escrevendo a minha raiva enquanto o meu ódio por ele vai crescendo e vou vendo a paisagem desenrolar-se lá fora. Quando saímos de Faro ele entrou para o autocarro depois de eu ter entrado. Eu já estava sentado à janela quando ele passou no corredor, olhou para o número do assento no bilhete e se sentou ao pé de mim. Fiquei a odiá-lo logo e à sua cara bolachuda e idiota. Andava com a boca semi-aberta o que acentuava ainda mais o seu aspecto de bronco. Através da janela vi uma jovem muito gorda e particularmente feia. Eu não costumo usar estas tremendas palavras a não ser em casos extremos. Ela era, de facto uma mulher muito impressionante. Ela estava à procura de alguma coisa espreitando para o autocarro. Eu lancei-lhe um sorriso condescendente e amoroso, como lanço a todos os filhos divinos do Senhor dos Mundos enquanto pensava que ela podia estar à procura do gordo jovem que se sentou ao pé de mim. Ele estava a escrever no telemóvel e ela a olhar para ele. Estive quase para lhe dizer que ela o procurava, mas não tinha certezas, ele ocasionalmente lançava olhares estúpidos para a outra janela, pela qual dificilmente conseguiria ver alguma coisa, uma vez que ficava do outro lado e o ângulo por que ele olhava não lhe permitia ver o chão perto da janela. Depois lá largou o telemóvel e eu vi na imagem de fundo uma fotografia horrenda daquela jovem que lá estava fora deitada. Senti um baque no coração. Podia tê-lo avisado, mas ele percebeu passados alguns segundos e acenou-lhe tristemente. Agora, esse mesmo braço dá-me cotoveladas e é só por isso que o odeio. O seu amor de rostos deformados, monstros em todos os pontos dos corpos é uma das coisas que faz andar o mundo. Tem de ser amado, mas este cabrão parece ser um pau-mole desmiolado e celamurda e podia muito bem ir para outro lado em vez de me estar a dar cotoveladas.

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