sexta-feira, 22 de julho de 2016

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (13 de Fevereiro de 2016)

Enquanto folheava um livro policial em checo e lia frases aleatoriamente, deparei-me com uma palavra que causou em mim uma forte impressão. A palavra era "smrt". Descrever a impressão que essa palavra me causou ainda se me afigura como algo muito difícil. Para além de ter sentido um calafrio, fiquei muito curioso por saber o seu significado, mas também fiquei ensombrado, de certa forma e não sabia explicar por quê. Li 200 ou 300 palavras desse livro, mas só "smrt" ficou gravada na minha cabeça. Algo muito misterioso acerca desta palavra é o facto de ela ser composta apenas por consoantes, o que me fez estranhar muito, uma vez que não existem palavras só com consoantes na língua portuguesa. Saí da livraria para as ruas de Praga que pululavam de vida, mas não havia muitos checos naquela zona. A capital da República Checa foi tomada por turistas e, neste dia específico, parecia-me ter mais russos e coreanos que checos, por isso custou-me arranjar alguém naquela rua para colocar essa questão que me perturbava "o que significa smrt?". Andei um pouco e, numa zona menos central, ouvi pessoas falar em checo, duas senhoras com cerca de 70 anos. Aproximei-me delas para lhes colocar a pergunta, mas algo me impediu de formulá-la. Senti um medo terrível e inexplicável e fiquei furioso por não ter um daqueles telemóveis com internet, com os quais uma pessoa tem a resposta para tudo com uma pesquisa rápida. Fui até ao Hostel, decidindo deixar a busca pelo significado da palavra para mais tarde e deitei-me um pouco. Como não me dava bem com os recepcionistas, por eles traficarem drogas e me dizerem que não traficavam, também não lhes perguntei a eles o que significava smrt. Enquanto estava deitado pensava não apenas na palavra smrt, mas também no secador e nos vestígios de erva que havia na mesa da recepção do Hostel na noite passada e que eu vi quando cheguei às 5 da manhã. Quem é que aqueles palhaços acham que enganam? Quando cheguei ontem, subi para o quarto no primeiro andar, fui à casa de banho e, quando saí, a luz automática das escadas já se tinha apagado. Como ouvi o secador a funcionar aproximei-me das escadas para que a luz se acendesse. Mal a luz acendeu deixei de ouvir o secador e ouvi alguém a arrumar coisas precipitadamente. As minhas suspeitas confirmaram-se e eu ri-me interiormente, seguindo para o quarto para dormir. Cambada de mentirosos obrigam os seus clientes a serem enganados pelos dealers de rua com os seus preços inflacionados e erva seca de má qualidade com cheiro a químicos vendida numa rua desolada com os candeeiros fundidos e que não está a ser cruzada por ninguém. A meio destes pensamentos lembrei-me que podia ter procurado um dicionário na livraria em que tinha visto o livro policial com a palavra smrt e podia ter tirado lá a dúvida. Como foi possível não me ter lembrado disso? Era bastante óbvio, quando uma pessoa quer saber o que quer dizer uma palavra vai ver ao dicionário, não anda a perguntar na rua...Amaldiçoei-me por não o ter feito e levantei-me para voltar de novo ao centro da cidade. Fui até à agradável ilha que fica no meio da ponte Legií e sentei-me sozinho a beber uma cerveja. A certa altura passaram por mim umas raparigas muito atraentes, falando checo, sorrindo abertamente, pois a vida tinha-as abençoado com o mais importante dos dons. Achei na minha curiosidade pela palavra smrt um bom motivo para meter conversa.
- Ahoj. Falam inglês? Podem tirar-me uma pequena dúvida? Sobre uma palavra checa. Estava a ler um livro e vi a palavra smrt, que me chamou a atenção por só ter consoantes. Quando a li senti uma espécie de calafrio.
- Oh...Essa é uma palavra muito má...
Por momentos achei que se tratava de um palavrão, mas a outra amiga completou.
- Há tantas palavras checas que só têm consoantes...por que razão essa chamou tanto a tua atenção?...Quer dizer MORTE...
Senti um tremendo baque no coração com a confirmação de que se tratava, de facto, de uma grandiosa palavra. Mais uma vez Ela apareceu à minha frente e eu notei-a ainda que, à partida não pudesse fazer ideia do que era. Ela apareceu e, mais uma vez, eu estava à frente dela.

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