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O Meu Poder (6) P

Por vezes tenho o poder de invocar relâmpagos e trovões. Isto não se trata de uma coisa que eu consiga fazer sempre, está mais que provado que nem sempre que eu quero que caía um trovão acabe por cair um trovão, mas a única vez que eu fui confrontado com a obrigação de provocar um trovão, consegui provocá-lo bradando aos céus para que ele surgisse. Estava na Roménia nas rodagens de um filme do meu grande amigo Ivos Strapunaris sobre uma pobre família da região dos Cárpatos e chovia a cântaros num dia em que já tinha havido alguns trovões, contudo nenhum desses trovões tinha sido captado pela câmara de filmar. O plano que filmávamos mostrava essa família a transportar um caixão com o cadáver da avó para uma aldeia vizinha com o intuito de a enterrarem lá, uma vez que não havia cemitério no triste e abandonado lugar em que viviam. Era um plano lento, muito fúnebre e violento. A família era fustigada pela intempérie e as crianças quase que voavam levadas pelo vento. As gigantes montanhas ...

O Meu Poder (IV) P

Quando estava em New York o meu amigo polaco Zbigniew Padniewski disse-me algo que me intrigou e ainda recordo claramente, apesar dos meus consumos da altura. Eu falava-lhe sobre querer escrever a história da minha vida, quando ele, sorrindo disse "no, no, no!", acompanhando a negação com o balançar dos dedos negativamente; bebeu um gole e lapidou "You zenit, you no writer, you, you watch, and you totally see". Entendíamo-nos perfeitamente com os nossos modestos ingleses e eu compreendi a sua triste frase...ele queria dizer, e o seu olhar confirmou-mo, que eu entendia todas as coisas a um nível superior e que era impossível colocar isso em palavras, ou seja, para ele, eu era como uma árvore que presencia silenciosamente tudo o que passa à sua volta sem sair do lugar em que está, sem aparentemente ser influenciada por nada. Como eu acredito no espírito das árvores sei que é preciso uma chama muito intensa para derreter um coração de gelo.

O Meu Poder (IV) P

Eu gosto é de estar comigo. Não preciso de mais nada. A minha cabeça, e as ideias que nela cozinho, com um constante sorriso nos lábios, indecifrável para quem o tenta interpretar, é a única companhia de que preciso para me aquecer nas noites solitárias. Não digo que não goste da companhia de outras pessoas, mas se tive mulheres-companheiras e filhos em várias partes do mundo e preferi abandoná-los a ter uma entediante vida com rotinas é porque consigo encontrar mais em mim do que aquilo que todos os outros me podem dar. É sem medo que me afirmo o Senhor Arrogância Distância. Quero que toda a gente fique longe e que saiba pouco sobre mim, apenas informações vagas e irrelevantes, ditas de forma fria e calculista. Quando estou com outras pessoas estou quase sempre a mentir-lhes, o que muito me diverte. Não é que isso me ajude nas relações com elas ou faça com que tenham uma melhor opinião de mim. As minhas mentiras nunca são auto-bajuladoras, na verdade, na maior parte das vezes, até sã...

O Meu Poder (III) P

Muitas vezes perguntam-me quando me comecei a sentir mais poderoso, mais ciente; no fundo, mais capaz de interpretar as ocorrências da existência. Recordo-me muito bem do dia em que senti esse poder sobre-humano invadir o meu corpo e transparecer em todos os meus actos. Estava deitado de barriga para cima, contemplando tranquilamente no escuro céu o silencioso brilho das estrelas, gozando a ociosidade da aldeia índia depois da noite cair, a 10 minutos da minha cabana, quando vi um esplendoroso brilho prateado rasgar o céu. Um delicado e curvo traço de luminosidade branca, apagou as estrelas ao céu redor. A lua nova deixara de o ser e o primeiro brilho de um novo ciclo lunar aparecia nas alturas, mesmo por cima de mim, no zénite do lugar onde estava deitado e o seu inesperado brilho encheu os meus olhos de luz divina e aclarou os meus pensamentos desde esse momento, há cerca de 40 anos, até hoje e, espero, para o resto dos meus iluminados dias. Salvé à graciosa lua, astro da noite.

O Meu Poder (II) P

Estou na consciência de todos os ainda não nascidos Sou o sopro vital da alma Tal qual foi sonhada No acto gerador No amor procriador Sou o grito universal de vida humana e de outras espécies Sou o mensageiro divino

O Meu Poder (I) P

Quando acordo e me recordo que tenho cem mil anos, que procriei com a Lucy e que 90 por cento da população humana actual é minha descendente directa, sinto-me melancólico e realizado. Vejo as multidões passarem pela minha janela, prestando-me um olhar de reverência. A minha luz seduz até o que está na cruz e eu deixo-O caminhar comigo, mas ele sabe que também é meu súbdito, que me deve vassalagem. Nas principais avenidas, o meu olhar angélico continuará a trazer a felicidade à humanidade, e assim continuarei o Eterno, o Pai dos Povos - Aquele que teve todas as Crenças e agora é Deus..