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Comiseração (54) P

Risquei o número 47, apesar de não havia nenhuma razão para riscar o número 47 daquele boletim de Bingo. Neste jogo, os jogadores, concentrados no som e no ecrã, vão riscando os números à medida que eles saem para terem uma noção dos que faltam para completarem o seu cartão e então poderem reclamar o prémio com alegria jubilosa. Com a saída do número 47, todos os números que estavam no meu cartão tinham saído, estavam todos riscadinhos e há quatro bolas que eu aguardava ansiosamente a saída da bola nº 47, mas, em vez de gritar "BINGO", eu risquei placidamente o último número do cartão, preenchendo-o completamente, num dos muitos gestos irrelevantes da minha vida, um daqueles gestos que eu estou sempre a fazer e que servem apenas para deixar para mais tarde aquilo que deve realmente ser feito, aquilo que eu preciso mesmo de fazer. É como se suspendesse o tempo enquanto me entrego ao doce adiamento da obrigação que, eu tenho sempre a certeza, mais cedo ou mais tarde acabarei po...

Comiseração (64) P

Enquanto regressava a casa de um passeio de bicicleta, reparei que as raparigas que por mim passavam me seguiam com os olhos com aquilo que me pareceu ser um genuíno interesse. A certa altura, quando passei por duas jovens universitárias, tive de ser muito céptico para me convencer que não se lhes aflorava nos lábios um tímido sorriso. Pouco depois, enquanto avançava no passeio, passou por mim um carro com duas raparigas e foi nesse momento que todas as minhas dúvidas se dissiparam. A rapariga que vinha no banco do pendura não só vinha sorridente a olhar para mim como comunicou à amiga alguma coisa que, segundo os seus gestos, me pareceu relacionar-se comigo. Como um pouco mais à frente havia uma rotunda acelerei o ritmo das minhas pedaladas porque era muito provável que elas abrandassem e eu pudesse passar na passadeira à frente delas. Consegui fazer o que inteligentemente previra, elas cederam-me a passagem e pude confirmar que me olhavam, de facto, sorridentes de dentro da viatura....

Comiseração (61) (P)

Nadir Veld Oh não, o tempo está a tentar matar-me outra vez e mandou em seu nome um rádio portátil com relógio digital cujos minutos vão avançando silenciosamente na noite descontrolada. As horas passam e o desejado sono nunca chega. Entro na cama, saio da cama, pego num livro, absorvo-me no livro e o sono não chega. Procuro outro método de induzir o sono no meu cérebro, mas ele está altamente activo e não se coíbe de me lembrar dos meus mais aterradores medos sempre que pode. A noite tornou-se numa bela manhã enquanto perseguia o sono e, apesar de eu me ter mantido alerta todas as horas de escuridão, sinto muito mais que fui vencido pela noite do que a venci a ela. Perdi-me em sonhos nas suas trevas românticas. Agradam-me as ruas nocturnas porque o imprevisível está mais presente nelas e isso faz com que eu me deixe levar por fantasias e acabe os meus dias a projectar quimeras e a desenvolver longas conversas imaginárias com pessoas da minha vida. Na noite em que os reuni a...

Comiseração (60) (P)

Oh não, estas pessoas estão a tentar matar-me puxando temas de conversa para os quais devia estar preparado, mas, de facto, não estou, ou, pelo menos, não estou absolutamente seguro de todas as respostas e eu temo muito dizer a coisa errada, a coisa ao lado. Nunca aconteceu, mas é-me absolutamente insuportável alguém vir ter comigo e dizer “epá, aquilo que tu disseste ontem sobre aquele artigo que estava a bom preço em x lugar, vi-o a metade do preço ontem em y lugar!”. Ser-me-ia insuportável ouvir essas palavras de depreciação. Sentiria o nojo que as pessoas sentem por mim a lamber-me os braços e sujando-me com o seu muco contagioso. Sentir-me-ia tão envergonhado que teria de escavar ali mesmo um grande buraco para me enfiar em lágrimas. Por isso estas pessoas que vêm ter comigo com perguntas complexas deixam-me sempre deprimido e nervoso. Só tenho vontade de me ir embora de onde estou e ir estudar os livros todos, todas as hiperligações, estudar todo o problema para depois falar...

Comiseração (58) (P)

Enquanto viajava de pé num autocarro para o centro de Bratislava o meu olhar focou-se numa jovem extremamente bela que estava sentada pouco à minha frente. Descrevê-la é uma tarefa difícil e irrelevante. Tratava-se de uma rapariga com todas as formas que encantam os homens e eu percebia que não era o único hipnotizado pela sua beleza quase inigualável. Como ímanes, as cabeças dos homens giravam para aquele polo de atracção e os seus olhos faiscavam de forma animal. Tenho a certeza que muitos deles esqueceram a estação em que deviam sair tão mesmerizados estavam pela sua majestosidade. O seu cabelo loiro caía em deleitosos fios sobre os seus seios protuberantes e nos seus olhos brilhava a vida na sua forma mais pura. Ainda que eu tenha ficado extremamente excitado e, naturalmente, erecto, o sentimento mais forte que ela exerceu sobre mim foi de intensa tristeza e desespero, porque se me afigurava como algo de inalcançável. No meu íntimo eu sei que jamais terei coragem de falar com uma m...

Comiseração (57) (P)

Oh, meu Deus, os meus colegas de turma estão a tentar matar-me! Eles são tão desinteressados e cretinos de nova geração que o meu coração se arrepia com tamanha falta de consideração pelo conhecimento e desenvolvimento pessoal. A professora estava a exibir um filme e estávamos apenas quatro estudantes na sala, mas apenas eu e uma colega estávamos a prestar atenção ao filme que ela nos queria exibir para contextualizar historicamente o espírito eslovaco dos anos oitenta. Um dos meus colegas estava a ver vídeos no telemóvel com os seus auscultadores num volume tão elevado que incomodava a visualização do filme que todos devíamos estar a ver, mas que ele, com o seu espírito tacanho e energúmeno estava a ignorar enquanto soltava ocasionais gargalhadas estupidificantes para a atmosfera. Enquanto este gajo mostrava o seu desinteresse pela vida ignorando uma película histórica, outra das minhas colegas atirou a sua cabeça para a mesa e desistiu de ver o filme quando ainda passava a ficha técn...

Comiseração (56) (P)

Toda esta dor no meu peito vem canalizada sobretudo do meu último erro. O arrependimento enche a minha alma até cometer um novo erro, e então é esse que se torna a nova dor, enquanto a angústia causada pelo erro anterior vai esmorecendo. Eu estou sempre a cometer erros, grandes erros, pequenos erros, timidezes que me destroem. Ontem foi a dança não dançada com uma pequena jovem sul americana de olhos negros exótico-hipnotizantes que me sorriam convidando o amor a entrar nas nossas vidas comuns, mas a grande barreira venceu mais uma vez e eu fui incapaz de transpo-la, de vencer o grande medo e então fiquei para ali, acanhado, dançando solto como um idiota às voltas e perdendo tudo, tudo, fazendo de conta que não queria nada com ela, mas sabendo que queria, mas escondendo por medo...Agora estou com o coração desfeito, a anos luz da felicidade, sentado numa cratera deserta a ver romanticamente as estrelas enquanto fumo um cigarro e penso que é um pensativo cigarro, enquanto esses pensamen...

Comiseração (P)

Partilhamos connosco uma grande dor no momento em que não somos nós e nos esquecemos da vida pensando que já estamos mortos. A nossa consciência desloca-se, mas não deixa de ser a nossa ainda que fantasiemos belos enredos para mentirmos vivendo a nossa vida. Não somos senão um fragmento do que poderíamos ser. Eu sou o oposto de um hipocondríaco. Tenho milhares de possíveis doenças, mas não me preocupo. Só quero que uma delas me mate depressa. Nadir Veld Em túmulos de ouro e lápis-lazuli Corpos de almas ricas em vida descansam E suam miraculosos odores Mas sob a terra dos cemitérios e a suja pedra Agitam-se inquietos os corpos dos que nunca morrem Em túmulos ornados de ouro guardados em grandes mausoléus Dormem em paz eterna o homem sagrado Mas, sob toneladas maciças de água salgada Jaz afogado e boquiaberto um pobre pescador desamparado Em túmulos de ouro sob mármores reluzentes As almofadas adocicadas confortam os corpos fatigados Mas sob terra calcada num panta...

Comiseração (57) (P)

Preciso de um pouco de estabilidade para poder mostrar aos meus netos a minha Natureza lutadora. Se ficar por aqui a minha tarefa não foi terminada, não foi terminada, não lhes mostro nada... Nadir Veld

Comiseração (57) (P)

Oh Meu Deus, a minha cabeça está a arder numa planície de mar ausente e eu saio procurando-o cegamente. Tento apenas cheirar o sal, sentir o odor do mar, mas encontro apenas mal. Nunca a paz de uma praia e sempre uma mala esquisita com coisas que não são minhas e que até tenho medo de conhecer. Até o amanhã é um terror que não quero conhecer. Sou um viscoso Homem Quebrado. E não saio da minha maldição.

Comiseração (55) (P)

Doem-me os braços e os amassos negados são piores que abraços roubados Oh Meu Deus, o meu coração está parado! Abandonado no meu peito amaldiçoado, já não bate, já não vive é só silêncio. Consumido por atrocidades e de esperanças despido quando se viu do alto sonho destítuido Fomos outra vez Inverno para as nossas sombras Assim que o som da chama se apagou na alcova E sozinhos percebemos que a vida estorva Se te tirassem as correntes, fugirias? - Não, esperaria a hora da vingança. Olha as minhas mãos geladas, não as posso aquecer, abandono-as à sua solidão. Elas que cuidem de si, as minhas mãos porque eu quero uma independência total. Ahahhaha, os meus orgãos abandonados apunhalar-me-ão pelas costas numa noite de solidão. Dai-lhes vida e trabalho enquanto não restar força para o seu sofrimento. Assim decretaram as legiões divinas. Oh Meuu Deus, toda à minha volta é uma estrada sem volta para a morte torta! Quantas vezes observei os caminhos estáticos até perceber que são e...

Os Homens Quebrados (XXXI) Comiseração 1 (P)

Oh Meu Deus, estes médicos querem matar-me! Eu fui a uma consulta de rotina num hospital suburbano e estive na sala de espera entre pessoas aleatórias sentindo-se indispostas, com principal destaque para uma rapariga que se contorcia e estava agarrada à barriga enquanto murmurava dor. Eu via os médicos passar, mas eles não lhe prestavam auxílio, por isso fui ver se podia ajudá-la eu, mas ela afastou-me violentamente, não podia estar em si, a coitada, voltei para o meu lugar. Espantaram-me aqueles médicos que não ligavam nenhuma a essa rapariga que estava no chão com esgares de pânico. Levantei-me e esperei que um deles passasse. Queria confrontá-lo, mas ao ver a sua cara através do círculo de vidro das portas que batem, ainda antes de ele entrar na sala de espera, pareceu-me ver uma máquina, o que me deixou desmotivado. Os seus olhos frios ignoraram-nos e chamaram um pequeno jovem e a sua mãe, que me pareceram estar bem dispostos. Saudei-os como saudo toda a gente no tempo, mas lancei ...

COMISERAÇÃO (PARA NÃO MAIS SENTIR) (P)

Se me despedisse de verdade não saberia a que horas voltava a ver-te voltar de um dia inglório e então era demasiado tempo no laboratório, por isso não vale a pena estarmos a esperar estar certos ou errados sobre o que quer que seja, por isso mais vale ficarmos, assim, sentados a olhar um para o outro na distância de uma vida, em que nos vemos sem nos ver, a não ser, a não ser por palavras, estúpidas palavras que me reencontram, que NOS reencontram aliás sempre estupidamente sem a bênção de um olhar, porque aqui nem a frase mais longa dos Universos pode contar...a frase mais comprida do mundo é incapaz de ligar duas pessoas como um olhar ou um contacto, por isso tudo isso então, quero despedir-me na esperança de um encontro fugaz, mas no campo talvez, os meus dias sejam então mais bem passados, na verdade, sim...agora no campo, com toda aquela paz, das vacas que mugem e o medo que não haja mulheres para mugir os nossos sonhos (porque eu bailo em baile para guardar memórias pornográfica...

Comiseração (54) (P)

Oh Meu Deus, estas vozes estão a tentar matar-me! Ao início eu tinha uma voz, era uma voz que ressoava forte e era ouvida. As pessoas obedeciam prestavelmente às suas ordens, porque era uma voz limpa, de líder. Com o tempo, a minha voz foi afrouxando. Comecei a falar para dentro e de forma insegura. As pessoas deixaram de me ouvir e comecei eu a seguir as vozes fortes que ouvia. Era muito feliz. As pessoas amavam-me e eu sentia-me integrado. Fazer aquilo que me mandavam deixava-me num paraíso de despreocupação. Os outros ocuparam-se de me fazer feliz e eu fui feliz pelos esforços deles, mas a certa altura tudo mudou. Vinda de mim, uma outra voz começou a discordar com as opiniões daquela que eu julgava ser a minha voz e então...instalou-se a dúvida. Qual é a minha voz? Será a primeira, a segunda...ou não será nenhuma destas...então apercebi-me de uma terceira voz, uma voz irada que estava lá no fundo do espírito a gritar pelo meu sangue. Desde esse dia, a minha voz tem vindo a multipli...

Comiseração (56) (Prólogo de "Os Homens Quebrados") (P)

Quando as palavras nos parecem insuficientes para expressar toda a complexidade do sentimento deste corpo ofegante, somos forçados a deixar esse modo de comunicação e então restam-nos imagens e melodias que podemos tocar, mas nenhuma imagem tem a sensação, que ultrapassa todas as metáforas e é muito mais que um banco de jardim numa cratera desértica de uma lua ancestral. Então, todas as formas de comunicação desaparecem e deixa-mo-la desaparecer, como se adormecesse nela o espírito, embalando a alma que, ainda assim, vê a destruição aproximar-se, porque no fundo sabe que está a tomar a atitude de deitar para baixo do tapete os importantes vestígios daquilo que é, na verdade, a minha vida despedaçada...os pequenos cacos que no fundo formam a minha identidade, e depois temos de ir buscá-los, mais tarde, não é? Já sabemos...Vamos buscar os cacos e eles estão sempre mais velhos porque não cuidamos dele, nem quisemos saber que eles existiam, vivendo estupidamente com cinquenta por cento da ...

Comiseração (55) (P)

Do meu ímpeto vazio espalham-se inadequados quadros, que, dependendo de onde são mirados, criam vultos irados, das minhas múltiplas sombras multiplicados, entes transparentes que habitam o cérebro doente e o povoam com opiniões contraditórias, milhões de trajectórias para um corpo se despenhar como um meteoro de desilusão no dia em que se lhe afigurar a Razão. Nadir Veld

Comiseração (53) (P)

Esta acédia Que me assedia Mais forte de dia para dia Nadir Veld

Introdução do Ilustre Doutor Zenitus Dohktori-rya + Comiseração (52) (P)

DEFORÍZIA Reflexão sobre o olhar externo Uma doença do foro espiritual descoberta pelo Eminente Zenitus Dohktori-rya e nomeada deforízia, caracterizada por visões do próprio corpo a partir de um ponto de vista exterior, como se o mundo fosse um espelho em que as sombras adquirem deformações impressionantes e apenas retransmitem o caos ao indíviduo, o caos de se rever de perspectivas absurdas e imprevisíveis. A imagem de si, muitas vezes projectada de forma a se auto-denegrirem, persegue-os. É como se vissem sempre o negativo da vida, tão congelados que estão num quotidiano que não tem felicidades nenhumas...Como a vida é infértil para alguns pobres coitados...O Nadir Veld sofre de deforízia ...e também por isso ficou maluquinho... Comiseração (52) Quantas vezes não dei por mim já fora de mim a observar os meus gestos patéticos e a ver! A ver como é possível proceder assim e não como num filme romântico em que toda a hora é a hora de triunfar esteticamente na batalha contra ...

Comiseração (51) (P)

Oh, Meu Deus, os lençóis da minha cama estão a tentar matar-me e, ainda por cima, estão a variar os métodos para a concretização dos seus diabólicos planos. Hoje os lençóis enrodilharam-se todos, porque já não faço a cama há muito tempo e começaram a prender as minhas pernas como se fossem os tentáculos gigantes de um polvo para me aprisionar e eu, não conseguindo sair, tive de desatar-me com as mãos durante dez minutos. Os meus pés estavam presosoutro dia estavam de tal forma quentes e confortáveis que eu não consegui sair da cama, pelo que fiquei deitado 5 horas para lá das horas da minha obrigação! Oh meu deus os lençóis da minha cama querem matar-me! Hoje escaparam-se e acordei na tristeza fria de uma lágrima de um daqueles sonhos que queremos que tenham sido reais e encaixamos num espaço bonito do nosso passado, mesmo perfeito, e nos convencemos momentaneamente que aquele momento cristalizado pelo subconsciente alucinado é a realidade pura, até que a manhã lava essa miragem e acor...

Comiseração (50)

Com um frio de morte à espera que o ecrã ligue e a luz me diga que caminho tomar com os meus pensamentos e então os meus dedos automáticos tratam de tudo e dirigem-se a cada uma das preciosas letras que conjugadas formam tudo e não formam nada, desenham preces na escuridão para serem lidas pelos demiurgos da nossa salvação. Os requisitos foram aceites podemos navegar pela nuvem.