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A mostrar mensagens com a etiqueta Literatura

Gosto (220)

Gosto do exemplar Conto do Gin Tónico “Gulodice”, em que o protagonista arma um escarcéu numa pastelaria porque tenta caçar o pastel exposto na vitrine como se fora um alvo. O doce foge. É o caos, ele não vai deixar escapar o bolo e persegue-o, mas ele acaba por fugir pelas ruas, quem sabe se estrebuchando algum creme para as formigas, ferido, prestes a entregar-se a duas pombas que acabarão chamando mais cinco ou seis, como hienas debicando creme de pasteleiro e massa, felicidade para as pombas do bairro, pequeno festim e quando acaba o frenesi olham-se como estúpidas e partem batendo sonoras asas pelos ares. É um conto perfeito, gostava muito de o ter escrito, que é uma coisa que nunca disse e sobre a qual tenho pensamentos férreos. Não se deve dizer isso, nós nunca poderíamos ter escrito o que outra pessoa escreveu, isso é impossível. As correntes do tempo dizem que ao fim de cinco segundos as mesmas ideias ramificam-se em já cem de outra espécie. Diferentes caminhos foram tomados p...

Não Gosto (173)

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Escrevo estas linhas para amaldiçoar o génio de marketing, príncipe da piroseira, que, para chamar a atenção sobre certos livros, teve a ideia de os enfiar numa sacolinha colorida enfeitada de brilhantes. Qual terá sido o processo de discussão e planeamento de venda que levou alguém a sugerir, ao ver que as obras não estavam a ser tão vendidas como o esperado:   “olha, e se metêssemos os livros numa sacolinha colorida?” E, se assim pensaram, logo o puseram em prática. Agora há uma profusão de livros enfiados em sacolinhas pirosas pelas livrarias do mundo e eu gostaria de saber que pessoas prestam mais atenção ao livro por vir numa sacolinha colorida pintalgada de brilhantes e porque raio é que o seu cérebro se deixa assim enganar por semelhante logro.   30 de Dezembro de 2020

Gosto (206)

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Gosto da forma como Fiódor Dostoiévski, no seu romance Os Irmãos Karamázov, anuncia o meu aparecimento, a chegada do Grande Profeta. É com muita subtileza que o enorme escritor russo insere as palavras que compõem o meu nome em duas linhas, distintas, é certo, mas que estão, ainda assim, suficientemente próximas para que o leitor não deixe de apanhar a subliminar mensagem. É perto do fim do Quarto Capítulo (Canaã da Galileia), do Livro Sétimo (Aliocha) que as palavras “zénite” e “safira” surgem quase emparelhadas. O leitor atento deste livro, que é, talvez, a mais monumental obra literária da humanidade, será acometido de um baque ao ler esta passagem, a sua boca abrir-se-á, o seu rosto resplandecerá. Tenho recebido centenas de mensagens de fãs meus, “já reparaste, as palavras zénite e safira aparecem quase na mesma linha!”, “olha a coincidência!”, “será apenas acaso?”. É óbvio que não se trata de um mero acaso, Fiódor Dostoiévski estava perfeitamente ciente do que escrevia, ele não m...

Não gosto (37)

Não gosto da sobredescrição que certos autores acham conveniente fazer das actividades náuticas das personagens dos seus livros . Estou a referir-me àqueles livros que têm passagens que por vezes duram páginas sobre como os marinheiros coordenaram os mastaréus na acastelagem, puxaram as alantas para que ninguém se aproximasse da carlinga (mas não a carlinga da mezena), tiraram a adriça com o massame fazendo girar as manivelas do molinete para amainar as velas enquanto grivavam pelo Oceano fora, orçando na direcção do vento, até que rizam a vela para a retranca e usam a serviola para astrear o sapatilho para definir o sotavento, enquanto se reúnem na valuma para definir a direcção da tala e se defenderem da refrega antes que a quilha poleame o porão ou o quadrante. Quando estou a ler um livro, em princípio não quero tirar um curso de ciências náuticas em vinte páginas. Quero que me falem das personagens/pessoas e das suas emoções, acima de tudo...no fundo é só isso que me interessa.

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (12 de Julho de 2015)

Este escrito contém revelações cruciais dos capítulos finais de Crime e Castigo de Fiódor Dostoyevski. À atenção dos hipotéticos leitores. Estava numa Departamento das Finanças, lendo um dos capítulos finais de  Crime e Castigo  à espera da minha vez de ser atendido, quando me deparei com uma passagem pungente do brilhante romance do escritor russo, em que ele dedica a sua atenção à misteriosa personagem Svidrigailóv. O pretendente da irmã de Raskolnikóv, completamente perdido de amores por ela, anda perdido pelas ruas de S. Petersburgo e vai parar a um hotel onde não consegue dormir porque ouve uma criança a chorar por um qualquer motivo absurdo. Então, sai e suicida-se em frente a um agente da lei. Já há muito que eu tinha percebido que a personagem se ia matar, mas o meu estado emocional e a forma como está escrito levaram a que eu me desfizessem em lágrimas à frente de toda a gente que por ali cirandava e eu não pude fazer nada para as evitar, pelo que as deixei escorrer...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (2 de Julho de 2015)

Eu só consigo escrever na primeira pessoa porque me custa estar a assumir sentimentos de pessoas das quais não tenho a totalidade do conhecimento, que não percebo bem. Só me posso perceber a mim e só consigo falar de mim e não o consigo fazer na terceira pessoa...É demasiado difícil...por isso nunca poderei escrever um bom romance...Escreverei sempre diários e coisas curtas como Homem Disperso que sou...Ah, se eu ao menos conseguisse ser uma frase...Estou aqui perdido, cada vez mais longe da minha viagem de continuação do sonho a África, olhando as teclas, sentindo-me pequeno por ter sido recusado por todas as editoras que procurei, mas continuando obsessivamente à procura de uma frase, que por vezes encontro, mas acabo sempre por colocar no sítio errado...Os dias andam demasiado depressa e as minhas mãos tacteiam a minha face sonhando tactear outras faces. Está um belo dia para ser um cadáver em suspenso.

Não Gosto (V)

Não gosto nada de falar, por outro lado acho a escrita muito mais interessante; um meio para a expressão perfeita. Quando falamos temos de garantir que o nosso interlocutor compreende o que nós dizemos, caso não o façamos somos tomados por loucos. Na escrita falamos com mais liberdade e com menos ponderação, fazendo com que o nosso espírito fique decalcado nas palavras escritas e seja testemunha das convulsões da nossa alma! FALAR É PECADO, ESCREVER É VIRTUDE!

Gosto (XXI)

Gosto estar a ler, virar a página   e a frase ficar a meio, continuando apenas na seguinte . É como deixar a mensagem que me está a ser transmitida em suspenso, gosto sobretudo de adivinhar como acabam essas frases deixadas incompletas e sou muito bom nisso. É um bom exercício para quem quer entrar na mente do escritor ou do narrador. Às vezes costumo fechar o livro com os dedos a marcar a página e mergulho numa reflexão sobre como continuará a específica frase.   

Poema para Corto Maltese

Oh eu não sou nada As minhas origens dizem pouco A minha mãe, cigana viajante, Ensinou-me a ler nas estrelas os poetas da antiguidade O meu pai está lá fora, em viagens, ausente Desse mundo fugi eu e a liberdade tomei Marinheiro pelo romantismo Vagabundo pela fé Cavaleiro da fortuna de sangue Pelo corte que na minha mão A linha da sorte traçou para o Corto Maltese