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Gosto (220)

Gosto do exemplar Conto do Gin Tónico “Gulodice”, em que o protagonista arma um escarcéu numa pastelaria porque tenta caçar o pastel exposto na vitrine como se fora um alvo. O doce foge. É o caos, ele não vai deixar escapar o bolo e persegue-o, mas ele acaba por fugir pelas ruas, quem sabe se estrebuchando algum creme para as formigas, ferido, prestes a entregar-se a duas pombas que acabarão chamando mais cinco ou seis, como hienas debicando creme de pasteleiro e massa, felicidade para as pombas do bairro, pequeno festim e quando acaba o frenesi olham-se como estúpidas e partem batendo sonoras asas pelos ares. É um conto perfeito, gostava muito de o ter escrito, que é uma coisa que nunca disse e sobre a qual tenho pensamentos férreos. Não se deve dizer isso, nós nunca poderíamos ter escrito o que outra pessoa escreveu, isso é impossível. As correntes do tempo dizem que ao fim de cinco segundos as mesmas ideias ramificam-se em já cem de outra espécie. Diferentes caminhos foram tomados p...

Revolta (Carta enviada ao Ministro da Ciência) (PASSSSS)

Drogados de merda! Aprendam a fazer a noite mais longa quando ela tem de ser mais longa e o dia mais longo quando ele tem de ser mais longo, num lusco fusco infinito de perfeitas cores conjugadas nos céus esplendorosos! Um pôr do sol eterno para os copos de vinho no rio e uma madrugada sem fim para aqueles que nunca se deitam porque estão preocupados com mil e uma coisas menos no dia seguinte. Filhos da Puta! Cientistas de merda! O que é que vocês estão a fazer com os Dinheiros Públicos!?!? Convertam as noites eternas imediatamente! Parem o maldito movimento de translacção! Façam a Terra girar ao ritmo das minhas emoções, seus malditos, charlatões...! Criaram a MÁQUINA DOS TEMPORAIS INFINITOS e não podem criar o simples controlo remoto do movimento auto-giratório do Planeta Terra?!? Como é possível sermos tão pouco civilizados naquilo que demandamos aos nossos cientistas...simples viagens espaciais em máquinas sem humanos! Em máquinas sem humanos...Um desperdício de lixo espacial que h...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (4 de Abril de 2015) (P)

Travei bruscamente cedendo passagem a sua excelência o peão aluado, que apesar de estar fora da passadeira, continuou o seu caminho como se nada fosse, olhando para a merda do telemóvel, mesmerizado pelo brilho das suas informações irrelevantes. Só pouco antes de parar totalmente o meu camião e depois de ter buzinado é que ele se dignou a levantar a cabeça e a olhar para a estrada e para mim. Não protestei de forma veemente. Mostrei o meu desagrado e ele ouviu-me. Repito, não fui veemente nem mal educado. Estava apenas a zelar pela sua sobrevivência, para que tivesse cuidado. Senti um soco no estômago quando vi o seu braço direito erguendo-se, executando com a mão um gesto universalmente infame. O seu dedo do meio apontado para o céu indicava um ataque contra os próprios Elementos. Como podia um sacana fazer aquilo quando o podíamos legalmente tê-lo assassinado há 10 segundos? Ah, se vivêssemos num mundo com despeito-antecipado...Ainda assim reagi depressa. Na noite anterior tinha esta...

O Cãozinho Riu

Sentado no seu tractor, Carlos sentia-se o imperador do mundo e não abrandava nunca, nem sequer lhe passava pela cabeça respeitar os sinais de conduta automobilística, muito menos os de moral. Atropelava os peões sem misericórdia e destruía todas as plantações dos sobreviventes, que, atormentados, faziam oferendas ao céu, implorando por alguém suficientemente corajoso para o enfrentar apesar da sua metrelhadora surreal. Do meio da multidão saiu Riu, um dachshund castanho, de pequeno porte, que num acto de imensa bravura, se lançou silenciosamente ao pneus anteriores da imponente máquina roendo incansavelmente. O Rei do Medo apontou a sua metralhadora ao cão para o ameaçar, mas era arma sem munição, pois Deus dá sorte à Razão. O Senhor do Caos Carlos, o conduto-canalha, fugiu com medo e, enxovalhado, retirou-se para as montanhas da Mongólia receando a ira vingativa do povo martirizado. O nobre cão foi abençoado com as maiores honras jamais oferecidas a qualquer Deus e foi louvada a sua...

Demónio do Céu ou um Anjo do Inferno........?

O doutor Esteves, como lhe chamavam todas as suas acompanhantes, pousou numa cadeira de café, a sua mala com o futuro de vários países. Precisava de um café e a Brasileira do Chiado pareceu-lhe o local ideal, bem perto da estátua do Pessoa, para ver passar os estrangeiros, como tanto gostara de fazer, mas também por ser fácil encontrar-se com o seu próximo Mediador. Agora a sua vida era uma reunião e pouco tempo tinha para fazer outra coisa. Quando pediu o café e viu o chegar o seu amigo não imaginou que pudesse ter uma bomba alojada no maxilar ingerida com um Hamburguer gourmet armadilhado por um Guerrilheiro. O negócio seguinte não se podia concretizar e reza a lenda que mesmo a cabeça da estátua do Pessoa se voltou para ver o espectáculo que aconteceu pouco depois de se sentar um severo alemão. Falavam do Verdadeiro Poder quando o Doutor Esteves se engasgou e explodiu como fogo de artifício unipessoal cujos despojos feriram mortalmente o alemão com uma abocanhadora dentadura sem cor...

Receptores Olfactivos

Os Receptores Olfactivos estavam na moda e toda a gente partilhava os seus cheiros nas redes sociais através de um novo e engenhoso aparelho capaz de transportares a ondas odoríferas. Mais uma vez os humanos provavam a sua estupidez, concentrando atenções que causaram alterações civilizacionais na guerra dos cheiros e do poder do controlo total através da manipulação de também esse sentido do homem. A audição é perturbada e controlada desde que nascemos por ondas rádio impostas por Senhores do Mundo, a visão dificilmente passa dois anos sem albergar um televisor, onde imagens-impostas conduzem a uma nova perdição, agora o olfacto passava também a ser controlado...os outros dois sentidos são mais difíceis de conquistar, mas os médicos inimigos facilmente lograrão os seus intentos maquiavélicos...Nas avenidas, vejo-os subirem e descerem despreocupadamente as noites tranquilas com nova maquinaria e um cheiro exótico à volta dos seus mantos com misteriosos sorrisos e também a ti te tolda o...

A Execução do Criminoso

Quando as bombas rebentaram, do fundo da rua via-se uma espessa nuvem de fumo que descia das nuvens. Caíam destroços de metal ardendo e um rio de sangue escoava-se para os esgotos. Mil duzentas e quarenta e três pessoas foram assassinadas pelo bombista.  Um grande criminoso, um verdadeiro velhaco, a pessoa mais odiada da Terra. O Governo da Terra em que ele cometeu o crime decidiu, depois de o capturar, puni-lo severamente. Prepararam um foguete e lançaram-se pelos céus em direcção à Lua. Depois de alguns dias de viagem aterraram. Um padre benzeu-o pela última vez antes de lhe porem um fato lunar especial e um capacete. Atiraram-no para a superfície lunar e instalaram câmaras na Lua para o filmar a sofrer. Durante dois dias deambulou pela lua, como se isso fosse o último desejo concretizado. Privado de alimentação numa paisagem desolada, o seu corpo foi-se desligando até que foi acordado por um choque e uma voz desesperada que o ordenava a tirar o capacete, se não a to...

Cruzeiro Voador

Quando numa tarde soalheira igual a tantas outras um avião não identificado cruzou os céus de uma grande potência mundial, poucos estariam conscientes que os actos daqueles que o divisaram através de radares poderiam ter consequências desastrosas para o destino da Raça Humana e, de uma forma quase geral, para a vida na Terra. Jonalbum foi o primeiro na sala de controlo a aperceber-se de uma presença estranha, que avançava destemidamente através das nuvens em direcção a sul, onde se encontrava a capital do país. A sua reacção foi influenciada pelo clima de tensão que se sentia entre as duas maiores potências mundiais. A ameaça de um ataque pairava há muito tempo. As pessoas viviam no medo e muitos achavam que o pequeno, mas poderoso país, que sempre fora inimigo da pátria de Jonalbum devia há muito ter sido destruído. Um pequeno ataque bastaria para deixar o país em chamas e sem habitantes. Aquela cultura cujas tradições se começavam a espalhar lentamente pelo mundo poderia ser extermi...

Perigeu

A tarde começava a findar quando decidi procurar, discernindo no horizonte um bom lugar para passar a noite ao relento. Caminhava em direcção às montanhas para, durante uma semana, viver longe de seres humanos, para que pudesse dar livre-trânsito aos meus pensamentos desta forma ininterruptos. Afastei-me da sociedade para pensar, pois há muito não me dedicava a alimentar a minha faceta filosófica. Avançava por um estreito trilho de terra, ladeado, de um lado, por uma floresta e do outro por um pequeno riacho. Na outra margem do riacho uma escarpa elevava-se a uma altura impossível de trepar. Quando a lua subiu no céu apercebi-me que provavelmente estava no perigeu, o ponto em que o nosso satélite natural se encontra mais perto da Terra. Contemplei a lua cheia e gigantesca com enorme prazer. O sol ainda não se tinha posto, por isso revestia a lua com uma bonita aura dourada. Meia hora antes de o sol se pôr entrei numa clareira da floresta e andei um pouco até chegar a uma ravina, antes...