Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr

30 dias de suspensão

  Não é que me tenham tirado a voz, mas, pelo menos, tiraram o ar em que ela se propaga, não me tiraram as palavras, mas tiraram-me a plataforma em que elas eram escritas. Agora posso usar outras plataformas, mas quem ouvirá? Aqui ninguém vem ler, isto é um não-lugar, se ninguém o frequenta nem sequer existe. É muito frustrante uma pessoa estar a construir uma voz e uma linha de ideias e depois desaparece-lhe o chão debaixo dos pés e já não há mais lugar para continuar a trabalhar nessa voz e nessas ideias. Um mês de suspensão é imenso tempo e ainda irrita mais porque se deve a denúncias de fascistas e nazis do PCP e da malta que fica muito incomodada por eu descontruir de forma brutal e contundente as reais intenções por trás do comunicado do Partido Comunista Português, que é igualzinho ao comunicado que o Partido Comunista da Coreia do Norte montou. Ora, pedir ao PCP que seja um pouco mais adulto e democrático que o Partido Comunista da Coreia do Norte não é uma grande exigência...

Assoltin Ossel de Ivos Strapunaris

O meu amigo Ivos mandou-me hoje um e-mail com o seu novo livro, “Assoltin Ossel”, pedindo-me para divulgar um excerto nas minhas redes sociais e no meu blog. O Ivos tem um grande orgulho neste livro, dizendo que se trata de uma das suas obras mais importantes e que esteve vários anos a escrevê-lo. A grande peculiaridade deste texto, que salta aos olhos logo na primeira frase, é que ele é escrito numa língua completamente desconhecida, com palavras que vão sendo inventadas pelo autor à medida que vai escrevendo, naquilo que pode parecer um exercício de pura lunacia, mas, quando analisado mais de perto, também pode ser visto como uma interessante reflexão sobre os tempos modernos em que tantas pessoas escrevem tantas coisas e têm tantas opiniões mesmo que estejam a dizer coisas tão válidas como as dispostas nas 470 páginas deste “Assoltin Ossel” do grande Ivos Strapunaris. Agorkonos leíos belav, delí meiun balidol kanko vari. Émios delius krygarl, fagajestus mûlti. Na kak d...

Os Diários Cambiantes de Zenit (Golo de Ronaldo, vídeo Pedro Guerra)

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (3 de Abril de 2018) Eu hoje vi um homem a voar. Não é certo que ele seja um homem, por isso não me chamem logo mentiroso. É possível que ele seja um Deus. É certamente um dos Deuses do futebol e o seu espantoso voo num pontapé de bicicleta formidável consagram-no definitivamente como um dos maiores jogadores da história, senão o melhor. No jogo de hoje dos quartos de final da Liga dos Campeões, Juventus x Real Madrid, Cristiano Ronaldo marcou um golo soberbo, assombroso, admirável, excelso, excelente, estupendo, magnífico, genial, mágico, lindo, único, extraordinário e por aí fora, todos os adjectivos são poucos e eles nem sequer foram capazes de sair da minha boca espantada no momento em que a bola bateu nas redes, pois nesse momento eu não fui capaz de mais que múltiplos murmúrios embasbacados de pura descrença. Eu não era capaz de acreditar naquilo que tinha acabado de acontecer, uma obra-prima absoluta da arte do futebol e tive d...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (Gritaria da Velha Roubada)

Imagem
Gritaria da Velha Roubada, Zenit Saphyr Há dois ou três meses gravei uma velha aos gritos na Graça em Lisboa. Ouvi-a a gritar ao longe e preparei o meu telemóvel para gravar o que ela dizia. Encontrei-a numa rua estreita por um mero acaso e em circunstâncias bastante curiosas, enquanto subia a colina em direcção à casa de uns amigos. Estive até às seis da manhã nas discotecas e depois saí com uma mulher, estive com ela até às 8 da manhã, depois ela foi-se embora e eu fui para o Adamastor para ver o amanhecer tranquilamente e fumar um baseado com a tristeza daquele amor derrotado. Estavam lá uns alemães que me deram MDMA e eu fiquei muito vivo, cheio de energia, desejoso de conversar. Estive com eles até às 9. Eram uns graffiters que tinham passado a noite a encher as paredes das ruas de Lisboa com desenhos dos nomes estilizados de bandas de hip-hop de Frankfurt, de onde eram. Mostraram-me as suas técnicas e cantaram-me alguns poemas germânicos. Gostei de os ouvir. Com os olhos ...

Os Diários Lunáticos de Zenit saphyr (P)

Regressava a casa vindo do meu trabalho às duas da manhã quando passei por um adorável casal de jovens que se beijava apaixonadamente em frente a um prédio. Eles estavam mesmo a comer-se à bruta, abraçados intensamente e segurando no pescoço um do outro, com a rapariga um degrau acima dele a dar-lhe uma despedida que prometia muito naquela relação. Eu continuei o meu caminho, um pouco mais sorridente por causa daqueles dois e, quando virei, cruzei-me com um homem alto e moreno que estava com as mãos enterradas nos bolsos de um sobretudo verde e com os olhos fixos postos atentamente nos amantes. Aquele voyeur parecia ser um homem parecido comigo, folgazão e jovial, sempre pronto para a brincadeira e para gozar com a vida. Estava completamente focado nos dois miúdos e nem sequer desviou os olhos deles quando me dirigiu palavra: - Já viu aqueles dois ali? Estão há dez minutos na marmelada em frente ao prédio. Não podem entrar? Ao menos iam para ali - apontou para um ponto morto, onde ...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (6 de Novembro de 2016)

Enquanto regressava a casa depois de ter ido ver o jogo do Benfica contra o Porto em casa de uns amigos meus aqui em Cracóvia, pensava no quão cínico era o futebol e quão pouco concebível era a alegria que eu não conseguia esconder. Caminhava numa zona suburbana desta cidade polaca e nem o ar pouco amistoso com que as pessoas me encaravam naquele lugar em que não costumam aparecer estrangeiros fazia com que eu perdesse o sorriso que tinha na cara e com que brindava quem quer que comigo se cruzasse. O Carlos e o Tiago ficaram duas raivas e ideias fixas antagónicas. Eu não tomei posição nenhuma, só estava feliz por o Benfica ter "ganho". O Carlos defendia a tese de que o Benfica não tinha jogado nada e que eles mereciam perder "que era para aprenderem". Não tinham feito nada o jogo todo, não tinham tido atitude, não tinham jogado à Benfica. O Tiago dizia que isso não interessava, que jogar bem não era tudo, às vezes as equipas têm de ser manhosas para emaranhar o adve...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (12 de Junho de 2016) Passado

Hoje acordei em Szeged no sul da Hungria, depois de ter chegado ontem por volta das 23 horas. Ainda saí para a louca noite húngara e não me arrependi porque vi coisas incríveis como danças sem fim na lama, saias subidas para cima para que se vissem as cuecas, um pénis erecto e uma rapariga de volta dele, um ouriço cacheiro iluminado pela luz branca de um telemóvel e duas mulheres a dirigirem-se a mim em húngaro com vozes que pareciam sedutoras. Deitei-me muito tarde, por volta das 4 da manhã, mas hoje consegui acordar às 8 para conhecer a cidade antes de apanhar o autocarro para Subotica, na Sérvia, onde combinei estar hoje à tarde com uma amiga minha. Enquanto explorava as cercanias da linda Igreja de Szeged em busca de bons ângulos para a contemplar, encontrei o Panteão da Universidade, onde estão dezenas de estátuas de antigos alunos ilustres. Foi com um misto de espanto e nojo que caminhei pela galeria entre as estátuas de físicos, escritores, biólogos e bioquímicos, entre estudi...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (6 de Setembro de 2016) (P)

Mais um ano passou e com este já lá vão cinquenta e sete voltas ao sol. Cinquenta e sete voltas ao astro e ainda há tantas coisas que tenho de fazer debaixo dele! Quando um dia acaba sinto sempre que o perdi irremediavelmente, que o desperdicei, que gastei mais uma vez o meu tempo a fazer e a pensar em coisas menores, a degradar a minha filosofia de vida e a minha forma de ver o mundo a trabalhar para que terceiros lucrem com o meu esforço, a cansar-me para que outros tirem benefícios disso, a suar e a sangrar para que Dinossáurios de Biblioteca bebam deleitados as excreções do meu empenho, a ver as minhas oportunidades de liberdade passarem a correr nas ruas movimentadas enquanto fumo infindáveis cigarros à janela do meu prédio, a pensar mais no que devia fazer do que a fazer realmente o que devo fazer, a planear uma viagem nunca concretizada a África, a ler notícias que nada interessam e a perder o meu tempo pensando nelas, a ler livros e a estudar filosofias gastas, a ver filmes sem...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (30 de Agosto de 2016) (P)

À atenção dos meus amigos: nunca abram uma lata de cerveja acabada de cair ao chão, nem mesmo que se tenha furado e esteja a aspergir espuma ameaçadoramente. Hoje, quando ia a subir uma rua de Belgrado com o meu amigo Robert, segurando numa mão uma garrafa de cerveja que estava a beber e usando a outra para segurar duas outras cervejas que ele tinha ido comprar e os calções que me caíam por não ter cinto. Na minha última viagem emagreci muito devido a longos períodos sem comer e ainda não tive dinheiro para comprar um cinto. Segurar as duas latas de meio litro e os calções era um difícil equilibrismo, mas não quis dar parte fraca pedindo ao Robert que me levasse as latas de cerveja que me tinha acabado de oferecer, por isso continuei a andar e a beber da minha, que estava bem fresca e me sabia maravilhosamente na tarde quente, porém, a certa altura, possivelmente devido a um passo descuidado, as calças caíram-me quase até aos joelhos. Motivado pelo facto de estar sem roupa interior...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (25 de Junho de 2016)

Estava em Košice na Eslováquia, a ver o jogo do europeu de futebol que opunha Portugal à Croácia, na esplanada de um café na zona central da segunda cidade eslovaca, sentado à mesa com um homem que não conhecia, mas tinha-me sentado ali por não haver mais mesas vazias e aquela ter boas vistas para o televisor. Já no prolongamento, depois de ter bebido três ou quatro cervejas, chamei a empregada para pedir mais uma. 'Jedno pivo' disse-lhe, num eslovaco perfeito e levantei o dedo indicador para simbolizar o um com a mão. Quando ela voltou trazia consigo duas cervejas. Ainda pensei que a segunda cerveja fosse para uma outra pessoa presente na esplanada, mas ela trouxe ambas para mim. Em inglês, porque o meu eslovaco não chega para explicações nem reclamações, disse-lhe que era apenas uma cerveja e fiz novamente o símbolo que eu há muito achava universal para o número um, um indicador esticado em nenhuma direcção particular, simplesmente indicando uma quantidade, uma unidade. A emp...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (24 de Agosto de 2016)

Em Bolonha, com um grupo de raparigas e também alguns rapazes extremamente imaginativos, apreciava as suas capacidades criativas enquanto faziam jogos colectivos que os divertiam nas quentes noites de verão. Elas tinham um papel com uma lista de desafios rabiscados que iam concluído ao longo das horas. Abordaram-me porque tinham escrito na folha que deviam encontrar um bolonhês casado que tivesse aliança e que andasse na rua às três da manhã. Eu disse-lhes que estavam com azar, que eu nem sequer era bolonhês, tinha nascido no Brasil. Elas acharam isso bastante exótico e convidaram-me a juntar-me ao seu grupo. Sentei-me na sua roda. O próximo desafio era cantar músicas que previamente ouviam, usando apenas sinónimos da letra original, sem que com isso desvirtuassem o verdadeiro sentido do poema. Foi muito divertido ver o esforço que faziam para encontrar palavras adequadas. A forma hesitante com que iam progredindo e avançando, revirando os olhos para procurar na sua memória mostrava qu...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (26 de Agosto de 2016)

Voltei hoje à cidade em que estou a viver actualmente, Novi Sad, depois de mais uma viagem pelos balcãs, em que passei pela bósnia e herzegovina, a macedónia, o kosovo e pela albânia, onde estive mais tempo. Neste lindo país conheci pessoalmente aquele que considero um dos melhores e mais apaixonados cantores da actualidade, o enorme Ilir Shaqiri. A ele e à sua abençoada voz, que não precisamos de entender para que nos hipnotize, mando um sincero abraço. De durres, cidade costeira albanesa, ainda fui para a Itália de barco, estive em Ancona, em Roma e em Bolonha, mas tive de voltar para os balcãs porque esta zona apela mais ao meu coração...não gostei lá muito de itália, tem lindas casas e edifícios, mas eu não viajo para ver monumentos, isso posso ver em fotografias. Viajo para sentir o amor das pessoas e um olhar apaixonado e cheio de vida de um albanês vale mais que todos os altares della patria. Em Itália, senti-me também ligado ao terramoto que destruiu Amatrice, por ter pensado ...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (18 de Fevereiro de 2012)

Enquanto acompanhava um jogo de futebol num café apareceu uma senhora com todo o aspecto de ser uma dessas pregadoras ambulantes que impingem ideias religiosas aos transeuntes que se cruzam com elas, espalhando principalmente o “testemunho de Jeová” e o evangelismo. Era uma mulher com cerca de 60 anos de cabelo branco e com óculos, com uma jovialidade irritante e com uma resma de revistas que pousou numa das mesas enquanto cumprimentava o senhor do bar e fazia observações pseudo-graciosas sobre o jogo e algumas coisas no café. A princípio ignorei-a e não descolei os meus olhos do jogo, porque estas pessoas normalmente causam-me uma grande repulsa, por isso evito ser abordado por elas, porém, a certa altura olhei para as revistas que ela tinha posto nas mesas porque a palavra escrita interessa-me sempre, ainda que a mensagem verse sobre coisas que não me interessam. Para meu grande espanto, entre as revistas estava aquilo que me pareceu ser um livro “normal”, um romance, mais particula...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (14 de Julho de 2016)

Hoje estava a cruzar a cidade de Subotica em direcção à estação de camionetas, para me ir embora desta cidade no norte da Sérvia e, por alguma razão, comecei a trautear a canção 'Foi na Cruz' de Nick Cave and the Bad Seeds'. Não encontro nenhuma explicação plausível para a estar a cantar naquela altura, mesmo depois de muito ter reflectido sobre isso. Vi uns rapazes húngaros a jogarem ténis na rua, mas isso não me fez pensar em religião nem em desolação, apenas no Novak Djokovic. Quando cheguei à estação liguei ao meu amigo Ricardo para lhe dizer a que horas chegava a Novi Sad e ele fez-me saber que Hector Babenco tinha morrido. Eu e ele partilhamos um grande amor pelo filme 'Pixote' realizado por Babenco. Foi um grande choque porque eu vinha a cantar a canção "foi na cruz, foi na cruz, que os meus pecados castigaram seu jesus" e essa música aparece no filme do qual Nick Cave é um grande fã, por isso compôs uma música em que até canta em português em homen...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (25 de Julho de 2016) (Passado)

Passeava na praça Blaha Luzja em Budapeste às duas da manhã quando um senhor com uma cara única me chamou a atenção. Tinha cerca de 60 anos e uma expressão dura difícil de qualificar. Parecia que todas as coisas terríveis já se haviam passado na sua vida. Tentei adivinhar a sua história: os seus avós haviam sido massacrados na Segunda Guerra Mundial, dois queimados e os outros lançados ao Danúbio; os seus pais haviam sido presos e torturados pelos nazis, mas conseguiram escapar para depois desaparecerem levados pelo carro negro dos comunistas, nunca mais apareceram; a sua mulher havia morrido a dar à luz o seu segundo filho; a sua filha morrera atropelada nos anos 90 ou desaparecera, raptada pelos alcoviteiros de produções pornográficas. Não sei, não faço ideia, posso apenas deduzir. A única coisa que posso dizer é que ele tinha um inolvidável rosto de sofrimento, uns olhos tristes focados no vazio, revoltados com a vida e uma dor imensa na alma, que contribuía para acentuar a monument...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (14 de Janeiro de 2016)

Estava na Fnac a ver os discos e um grupo de raparigas adolescentes estava a tentar decidir que disco comprar. Não reparei quais eram os discos que se propunham a comprar, mas vi bastantes discos dos Muse  no sítio onde elas estavam. Queriam levar dois discos. Uma delas fazia as contas ao dinheiro que tinha e a quanto custavam os discos, quando uma outra soltou esta frase monumental: - Faz as contas no telemóvel, porque é que estás a usar a cabeça? PORQUE É QUE ESTÁS A USAR A CABEÇA? Quando estas palavras chegaram aos meus ouvidos não pude evitar largar uma imensa gargalhada tonitruante. Nem sequer consegui manter-me de pé, dobrei os joelhos, inclinando-me e agarrei-me à prateleira onde estavam os discos a 40 centímetros do chão para não cair. Repeti a frase da jovem mulher: - Porque é que estás a usar a cabeça? Meu Deus, por que raio é que hás-de usar a cabeça? Vivemos no tempo em que tudo está feito para nós...Toda a papinha está mastigada. Segui naquela risota até às raparig...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (13 de Fevereiro de 2016)

Enquanto folheava um livro policial em checo e lia frases aleatoriamente, deparei-me com uma palavra que causou em mim uma forte impressão. A palavra era "smrt". Descrever a impressão que essa palavra me causou ainda se me afigura como algo muito difícil. Para além de ter sentido um calafrio, fiquei muito curioso por saber o seu significado, mas também fiquei ensombrado, de certa forma e não sabia explicar por quê. Li 200 ou 300 palavras desse livro, mas só "smrt" ficou gravada na minha cabeça. Algo muito misterioso acerca desta palavra é o facto de ela ser composta apenas por consoantes, o que me fez estranhar muito, uma vez que não existem palavras só com consoantes na língua portuguesa. Saí da livraria para as ruas de Praga que pululavam de vida, mas não havia muitos checos naquela zona. A capital da República Checa foi tomada por turistas e, neste dia específico, parecia-me ter mais russos e coreanos que checos, por isso custou-me arranjar alguém naquela rua par...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (23 de Maio de 1976)

A sorte é uma vagabunda deambulando na vida à espera de ser nomeada. É uma incógnita, é o que acontece. A sorte é o devir e o julgamento do merecimento vem no futuro com esse devir. Podemos ter tido sorte ou não no entretanto. Há pessoas cuja sorte praticamente não existe, não tem hipóteses de se efectivar por um elevado número de razões, nomeadamente geográficas. Há sítios em que há pouca sorte a pairar na atmosfera e o azar em todas as ruínas cai sob a forma de pó e estuque. Aprisionados nesse azar os seres humanos tentam sair a não ser que tenham metralhas e estejam aos comandos dos Senhores da Guerra, então, nesse caso, têm muita acção pela frente, há que pilhar essas cidades todas, despojar o bem da terra, servir os Senhores do Inferno, os Senhores do Mundo, propagando azar durante imortais gerações. A História foi demasiadas vezes contada, todos sabemos o que aconteceu com a sorte e com o azar no outro dia. Desde Jesus, e até antes dele, homens armados conspiram na sombra congemi...

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (3 de Maio de 2016)

Oh, meu Deus, há tantas coisas para fazer! Tenho de estudar meia hora de sérvio, catalogar 212 fotos tiradas a uma árvore, meter conversa com pessoas excepcionais cujos dons mais virtuosos servirão de candeia para alumiar o meu caminho completamente aleatório, tenho de montar 8 dos filmes que filmei a semana passada, tenho de acabar 12 dos meus contos, terminar o meu romance documental sobre as aparições de Nossa Senhora, agora de Fátima, senhora de fátima em portugal, tenho de arrumar tudo isto e dar uma ordem à minha cabeça.

Os Diários Lunáticos de Zenit Saphyr (25 de Abril de 2016)

Pela primeira vez em muitos anos passei o 25 de Abril longe de Portugal, onde o dia da Revolução dos Cravos é celebrado com grande pompa. Neste dia costumo ouvir as músicas anti-regime de Zeca Afonso, as músicas contra o estado das coisas do José Mário Branco e músicas melancólicas que lembrem esses terríveis tempos. Estava com o meu amigo Milorad a ouvir e a cantar de forma bastante emocionada a música Cantar de Emigração do Adriano Correia de Oliveira, cuja letra foi escrita em galego pela grande Rosalía de Castro e traduzida brilhantemente por José Niza quando ele me pediu para lha traduzir para inglês. Quando cheguei à parte Galicia, you stay without men, expliquei ao meu amigo Milorad que a Galiza era uma parte de Portugal, país pelo qual ele sabe que eu tenho um grande amor. Acrescentei ainda que a Galiza não faz parte de lugar nenhum e é uma comunidade bastante própria em Portugal. Disse que até tinham uma língua diferente, na qual o poema original tinha sido escrito. Com esta m...