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Gosto (220)

Gosto do exemplar Conto do Gin Tónico “Gulodice”, em que o protagonista arma um escarcéu numa pastelaria porque tenta caçar o pastel exposto na vitrine como se fora um alvo. O doce foge. É o caos, ele não vai deixar escapar o bolo e persegue-o, mas ele acaba por fugir pelas ruas, quem sabe se estrebuchando algum creme para as formigas, ferido, prestes a entregar-se a duas pombas que acabarão chamando mais cinco ou seis, como hienas debicando creme de pasteleiro e massa, felicidade para as pombas do bairro, pequeno festim e quando acaba o frenesi olham-se como estúpidas e partem batendo sonoras asas pelos ares. É um conto perfeito, gostava muito de o ter escrito, que é uma coisa que nunca disse e sobre a qual tenho pensamentos férreos. Não se deve dizer isso, nós nunca poderíamos ter escrito o que outra pessoa escreveu, isso é impossível. As correntes do tempo dizem que ao fim de cinco segundos as mesmas ideias ramificam-se em já cem de outra espécie. Diferentes caminhos foram tomados p...

Gosto (206)

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Gosto da forma como Fiódor Dostoiévski, no seu romance Os Irmãos Karamázov, anuncia o meu aparecimento, a chegada do Grande Profeta. É com muita subtileza que o enorme escritor russo insere as palavras que compõem o meu nome em duas linhas, distintas, é certo, mas que estão, ainda assim, suficientemente próximas para que o leitor não deixe de apanhar a subliminar mensagem. É perto do fim do Quarto Capítulo (Canaã da Galileia), do Livro Sétimo (Aliocha) que as palavras “zénite” e “safira” surgem quase emparelhadas. O leitor atento deste livro, que é, talvez, a mais monumental obra literária da humanidade, será acometido de um baque ao ler esta passagem, a sua boca abrir-se-á, o seu rosto resplandecerá. Tenho recebido centenas de mensagens de fãs meus, “já reparaste, as palavras zénite e safira aparecem quase na mesma linha!”, “olha a coincidência!”, “será apenas acaso?”. É óbvio que não se trata de um mero acaso, Fiódor Dostoiévski estava perfeitamente ciente do que escrevia, ele não m...

Gosto (72) P

Gosto da triste e mui azarada história de Nedeljko Čabrinović, um dos nacionalistas sérvios implicados na morte do Arquiduque Francisco Fernando, cujo assassinato desencadeou a Primeira Guerra Mundial. Čabrinović nasceu em Sarajevo e considerava-se um verdadeiro sérvio, querendo por isso combater a ingerência do Império Austro-Húngaro no seu país. Para isso juntou-se à organização Crna Ruka (Mão Negra), cujo lema era “Unificação ou Morte” e pretendia unificar os países eslavos do sul (algo semelhante à ex-Jugoslávia). Contudo, se dependessem de Čabrinović, os jugoslavos ter-se-iam visto num lindo sarilho. A 28 de Julho de 1914, sete membros do Crna Ruka juntaram-se em Sarajevo para matar o Arquiduque Francisco Fernando, mas formavam um grupo bastante amador, constituído unicamente por jovens, que ainda por cima sofriam de tuberculose e foi por saberem que a morte estava próxima que se arriscaram a matar o poderoso Arquiduque. Čabrinović foi o primeiro deles a entrar em acção. Lançou ...

Gosto (66) P

Gosto de espevitar temores adormecidos nos meus amigos, de os assustar e de lhes provocar um medo que, não raras vezes, toma proporções sobrenaturais. Lembrei-me de escrever sobre isto quando lia 'A Ponte no Rio Drina', mais especificamente a parte em que Ivo Andrić narra a forma como os meninos da cidade de Višegrado lidam com a lenda do Mouro Negro, que estará aprisionado numa das bases da ponte cuja história é contada no livro. Nessa base há um buraco por onde se pode espreitar para o interior e quem vislumbrar o Mouro morre instantaneamente. Uma ou outra criança mais brincalhona e pouco dada a superstições, finge ter visto o homem e começa a gritar 'o Mouro, o Mouro!' e larga a correr pela margem fora, assustando os outros e "assim estraga o jogo e provoca desilusão e indignação àqueles que gostam de jogos de fantasias, odeiam a ironia e acreditam que, ao olharem intensamente, podem realmente ver e viver alguma coisa", como escreve o autor no seu excelente...

Gosto (65) P

Gosto das raparigas que andam de Vespa na grande cidade de Roma com os seus cabelos ao vento debaixo do capacete negro, com óculos de sol, que lhes dão um ar misterioso, quase imperscrutável, escondendo os seus olhos brilhantes, cheios de vida e com as suas lindas pernas bronzeadas surgindo de brancas saias provocadoras com rendilhados que deixam entrever alguma deliciosa pele. Gostava que, um dia, uma delas parasse e me desse uma boleia rumo à felicidade desejada, seria a concretização de um grande sonho. Pode dizer-se que tenho uma pancada por estas jovens desconhecidas e posso facilmente passar um dia a olhar para a estrada e a vê-las passar, com um sorriso pervertido na cara expressando toda a depravação de um louco solitário. Gosto também do facto de os italianos se deslocarem tanto de mota, a sua forte presença nos filmes não é um estereótipo exagerado, pois acaba por ser o modo mais inteligente de se deslocarem por aquelas típicas ruas estreitas em que dificilmente um carro pass...

Gosto (64) (P)

Gosto de palavras com muitas consoantes seguidas, principalmente palavras eslavas. A minha estadia no leste permitiu-me adquirir a capacidade de pronunciar palavras lunáticas como šmrt (a minha favorita em termos de significado), štvrtok (a minha favorita em termos de sonoridade), vlk, krv, srdc, msze, crvki (que se prenuncia tsrvki, pois na maior parte das línguas eslavas o 'c' lê-se 'ts' - o nome do realizador Emir, nascido na Bósnia, em Sarajevo, não se pronuncia 'Kusturika', como a maior parte das pessoas diz em Portugal e noutros países, mas sim 'Kusturitssa') entre outras, que significam, respectivamente, morte, quinta-feira, lobo, sangue, coração, massas e igreja. Todas elas são em eslovaco, pelo menos, pois podem ser comuns a várias línguas eslavas, excepto a penúltima que é em polaco e a última que é em sérvio. Até aprendi a cantar e a inserir algumas destas palavras de difícil pronuncia nas minhas cantorias. Para mim é muito desafiante e enriqu...

Gosto (63)

Gosto daquilo a que chamo 'um céu de incêndio'. Claro que não gosto de saber que, algures nas redondezas, há uma linda floresta com maravilhosas árvores a morrerem cruelmente, queimadas, consumidas por um fogo intempestivo, mas o fumo que sobe aos céus no momento da incineração das pobres árvores forma uma espécie de cortina à frente do sol que funciona como os filtros que se colocam à frente dos projectores que iluminam as filmagens para dar à cena um aspecto mais adequado com o que se está a passar naquele momento do filme e com o que o realizador quer transmitir ao espectador. Esse fumo transforma a luz do sol e converte-a numa luz ainda mais quente, alaranjada em vez do tom amarelo habitual e eu adoro essa cor, essa luz, por isso, contemplar paisagens com essa iluminação, dá-me um enorme prazer e posso ficar horas a ver essas cores caírem nas casas e nos caminhos. Quando o fumo é muito escuro dá à atmosfera um tom sombrio que também aprecio sobremaneira. Até nem desgosto do...

Gosto (62)

Gosto de me sentar em lugares nos quais a vista que albergo é perfeitamente simétrica. Por vezes fico sentado durante horas em bancos de jardim, a olhar para a perfeita simetria dos jardins habilmente construídos para o prazer dos homens por talentosos escultores de flores. Faz-me sentir uma serenidade indescritível, sinto que me fundo com a Natureza e que a Natureza se funde comigo.

Gosto (61) (P)

Gosto de ter as unhas das minhas mãos cortadas assimetricamente. Quando corto as unhas nunca o faço de maneira a que fiquem todas cortadas, deixo, normalmente, duas em cada mão por cortar. As unhas são um instrumento utilitário que pode dar bastante jeito, sinceramente não entendo por que raio é que as pessoas cortam as unhas todas, privando-se a si próprias de um excelente utensílio. Por exemplo, se uma pessoa tem uma comichão, pode coçar-se com o dedo sem unha, mas esse coçar não garante o mesmo prazer que o arranhar com a unha garante. Falo de comichão, mas poderia falar de milhares de outras utilizações da unha das quais se privam as pessoas que, estupidamente, cortam todas as unhas da mão. Há alguma razão para as pessoas terem as unhas todas cortadinhas? Já fui gozado por muitos dos meus amigos por ter as unhas assimétricas, umas cortadas outras não, coisas como "és mesmo cabeça no ar, Zenit", "olha para as unhas deste gajo", gargalhadas sem fim e tudo mais. Eu...

Gosto (60) P

Adoro aquela menina eslovaca que passou por mim hoje em Bratislava, quando visitava um amigo meu português. Ela tinha uns pequenos calções justos às suas incríveis ancas, o que dava um grande realce às suas maravilhosas formas. A coisa mais estonteante na sua figura era a forma como ela colocava o seu computador portátil, encostado à sua anca, impossibilitando que se vissem os seus calçõezinhos azuis, dando a ilusão de que aquela angélica loira caminhava nua, caso olhássemos para ela de perfil. Continuarei apaixonado por ela até ao dia em que morrer. Ela é daquelas raparigas que está ciente que a sua mera presença pode alegrar o dia de um homem.

Gosto (59) P

Gosto de espalhar notícias falsas pelas avenidas de Lisboa e outros locais movimentados de Portugal. Já aqui falei sobre quanto gosto de mentir e enganar as pessoas, acho que, com isso, posso aprender bastante sobre elas. Um dos momentos mais divertidos da minha vida foi quando disse ao meu amigo, Ricardo Fonseca, na presença de duas senhoras idosas, junto a uma banca de jornais, por volta das cinco da tarde: "pois...isto agora com a morte do Mário Soares...". Disse-o exactamente no momento em que nos começamos a afastar, pelo que as velhas não me puderam confrontar com a minha afirmação nem perceber o que eu achava que ia acontecer com a morte de Mário Soares. Quando já estava a alguma distância, voltei-me e pude vê-las a olhar para mim e percebi que uma delas, a que ouvia melhor, possivelmente, estava dizer à outra o que eu tinha acabado de dizer. A velha tinha mesmo o ar de estar a dizer "ouviu o que disse aquele senhor? Morreu o Mário Soares!". Foi muito engraça...

Gosto (58) P

Gosto de libertar as folhas que escrevo à mão, soltando-as à toa para a escuridão. Isto quer dizer que gosto de espalhar os meus escritos aleatoriamente pelo mundo. Como já disse, dá-me um enorme prazer escrever à mão, acho que só assim consigo expressar verdadeiramente o meu sentimento. O resultado desse acto criativo são folhas que, do meu ponto de vista, valem vários milhares de euros, ainda que sejam vulgares folhas A4 brancas, com ou sem linhas (algumas até quadriculadas), pois estão povoadas de gloriosos pensamentos, bonitos desenhos e ideias aparentemente simples, que, na verdade, abrem milhares de portas. Quem ler uma das folhas que eu escrevo à mão tem uma parte significativa da verdade do mundo escancarada diante dos seus olhos. Um amigo meu a que eu ofereci 20 das minhas folhas de prenda de aniversário, disse-me, que, em cada uma delas, encontrou ideias que chegariam para preencher uma inteira e complexa vida de trabalho, tão profundas e disruptivas eram as mensagens nelas e...

Gosto (57) P

Gosto de tirar fotografias nas linhas de caminho de ferro, principalmente se se estiver a aproximar um comboio e a imagem dele a vir em direção a mim, o eu fotógrafo, poder transmitir uma ideia de suicídio. Sinto uma intensa sensação de estar vivo sempre que enfrento a morte, que neste caso se acerca de mim na forma de um furioso monstro metálico a alta velocidade. Sempre que os maquinistas apitam, ao ver-me como um louco na linha em que circulam, apodera-se do meu coração um quase medo que o comprime. A adrenalina está em altas, o meu cérebro acelerado, tiro uma última foto e, salto da linha 10, 20 segundos antes da passagem do comboio pelo sítio onde estou. Sou corajoso, mas não sou maluco, não consigo aguentar-me lá até ao fim. A força do vento, que a passagem do comboio provoca, arrasta-me um pouco, apesar de eu estar deitado, como se me sugasse em direcção ao comboio e eu fico a pensar no pobre maquinista, quase assassino involuntário, no que ele achará da minha atitude e se me od...

Gosto (56) P

Quando estou em Berlim, ou noutras cidades alemãs de grande importância, gosto de perguntar aos porcos germânicos, como um mero turista perdido que procura direcções, onde se encontra a estátua de Adolf Hitler. Eu sou um grande actor, pelo que sou capaz de colocar a questão sem me desmanchar a rir, mantendo um ar sério, que mistura genuíno interesse com ingenuidade (uma pitada de ingenuidade é muito importante para que os porcos alemães achem que eu acredito que se encontra mesmo uma estátua de Hitler nas redondezas). Procuro mesmo aqueles alemães que me parecem mais chauvinistas e imbecis, o que não é nada difícil na Alemanha, onde eles existem na proporção de 98 para 100. Para que a pergunta não lhes chegue aos ouvidos como um tremendo choque e um insulto de um estrangeiro, coloco-a, normalmente, em alemão:  Wo ist die Hitler statue? Quando me parece estar na presença de um completo energúmeno coloco a pergunta em inglês e refiro-me ao Monumento de Homenagem a Adolf Hitler .

Gosto (55) P

Gosto de estar sentado nas principais praças e avenidas das grandes cidades, onde há muitos monumentos belos e turistas que querem uma recordação daquele lugar, à espera que atraentes jovens me peçam para lhes tirar fotografias com os mais emblemáticos símbolos da cidade como pano de fundo. Faço um grande esforço para obter o melhor ângulo possível e enquadrar uma foto memorável, que eternizará a passagem por aquele lugar para as belas donzelas que fotografo. Depois do gelo estar quebrado é muito fácil entabular conversação com elas e convencê-las a algo mais que uma mera e olvidável sessão fotográfica. Mostro-lhes a cidade, contando-lhes histórias, não raras vezes inventadas, sobre cada um dos monumentos e edifícios, depois de algum tempo não é muito difícil convencê-las a algo mais.

Gosto (54)

Gosto de estar a dançar num bar/discoteca em que há cacos de vidro de copos ou garrafas partidos espalhados num chão que esteja melado com o álcool derramado e faz com que os pequenos pedaços de vidro se colem ao meu calçado e que o meu calçado se cole ao chão numa dança de cacos quebrados e de vidro que se vai partindo mais e mais. Quando saio para a rua, os meus passos de vidro soam alto e eu sinto-me poderoso naquele desequilíbrio bêbedo. É muito engraçado estar a sacudir os cacos dos sapatos.

Gosto (53) (passad)

Quando estou em lugares onde há muitos jovens, como festivais de música ou esses hostéis baratos onde os jovens costumam ficar quando andam a viajar porque precisam de poupar dinheiro para o álcool e para as drogas, gosto de buscar os sons de sexo, escutando de porta em porta, ou de tenda em tenda. No último festival de música a que fui andei todo o último dia, sozinho, depois da música ter acabado, ziguezagueando entre as tendas para encontrar casais fazendo amor por trás do fino tecido das tendas e tirei muito gozo dos momentos em que "me meti" com eles, ora abanando a tenda como se estivesse a haver um tremor de terra maior que aquele que eles provocavam com os seus movimentos de entra e sai, ora gritando lá para dentro curtas frases engraçadas como "dá-lhe forte nessa porca, amigo" ou "então, esse gajo vale alguma coisa?". Sempre que fazia isto abandonava os locais tranquilamente, porque sabia que não havia a mínima possibilidade de eles saírem para me...

Gosto (52) (passad)

Gosto da forma como os espanhóis e outros povos castelhano-falantes dizem as palavras inglesas , sem qualquer consideração pela pronúncia com que cada uma deve ser dita. Ao contrário dos mariconços dos portugueses, que quando vêem chegar uma palavra em inglês, esfregam as mãos de felicidade e se preparam para a dizer de forma correctíssima, gozando e rebaixando quem quer que falhe levemente a pronúncia. Para mim, isto é uma prova incrível de falta de identidade e de orgulho à língua que se usa. Já antes escrevi aqui sobre a irritação que me provocam as pessoas que usam palavras inglesas no meio das frases em português, que é um dos outros sintomas da "anglo-saxonização" do bendito português, uma língua muito mais bonita e complexa que a língua de Shakespeare. Nós queremos estupidificar, por isso, estupidifiquemos.

Gosto (51) P

Gosto do meu próprio cheiro a suor, mas não o aprecio somente por ser um símbolo do esforço e da luta, acho-o realmente um cheiro agradável, principalmente quando misturado com o cheiro de relações sexuais. Certo dia, estive toda a tarde caminhando no centro de uma capital europeia depois de ter passado a noite e parte da manhã a fazer intenso amor com uma jovem finlandesa, adiando mais e mais a hora em que me ia lavar, porque estava a ficar realmente encantado com a mistura de cheiros que eu tinha. Os suores das outras pessoas não cheiram tão bem como o meu cheira!

Gosto (50)

Gosto muito da Praza do Obradoiro em Santiago de Compostela na Galiza. A mítica Catedral, que com uma imponência arrebatadora domina a Praça elevando-se até nuvens de sonho, guarda os restos mortais do Apóstolo Santiago, amigo de Cristo, e, por isso, é o destino de milhares de peregrinos que percorrem um mágico caminho até a encontrar, linda, gigante e orgulhosa no centro de Santiago. Quando me sentei numa manhã de Verão a ver chegar os peregrinos triunfantes só me consegui levantar numa tarde atordoada, inebriado daquele perfume de felicidade dos caminhantes. No meio daqueles diletantes eu já não sabia qual deles era, olhava para todos e mudava de lugar, era todos os sítios e todas as chegadas e todas as esperanças. Por volta das 19:00 da tarde as nossas sombras tombam gigantes em direcção à Catedral enquanto o Sol se põe no Horizonte que rejeitámos, pois só olhamos para a catedral e para a sombra dos nossos corpos fatigados. Um copo de vinho pela Irmandade que sempre há na Praça. Tod...