Os Diários do Volta
1 (24 de Junho de 2026)
Nesta coisa do sistema Volta para recuperar o dinheiro pago pelas embalagens de plástico ou latas que compramos, ainda não fui a um Pingo Doce em que me permitissem pôr o dinheiro na minha conta bancária, o dinheiro que eu paguei pela garrafa. É uma coisa inacreditável, devia haver revolta geral sobre isso, é mesmo um escândalo. Então eu pago 10 cêntimos por uma garrafa de plástico, posso reaver esse dinheiro, mas em vez de me darem esses dez cêntimos eu tenho de ficar com um cupão para usar exclusivamente no Pingo Doce? O dinheiro da embalagem que comprei passa, inapelavelmente, a pertencer ao Pingo Doce? Como assim? Noutros postos, como o do Mercadona, por exemplo, temos a opção de pôr o dinheiro directamente na conta bancária num gesto rápido com o contactless. Isso não ser possível no Pingo Doce parece-me um escândalo nacional de que ninguém está a falar. Mas que raio de poder tem o Pingo Doce para fazer semelhante coisa?
2 (25 de Junho de 2026)
É preciso ser-se um tipo muito refinado de canalha para, sabendo que se comprou uma garrafa com o símbolo Volta e que não se vai às máquinas recuperar o dinheiro da embalagem, destruí-la desta forma para que mais ninguém possa recuperar o dinheiro caso apanhe a garrafa. É uma espécie de inveja misturada com "isto é meu e de mais ninguém" e "eu é que paguei por isto, ninguém vai ter o meu dinheiro desta garrafa" complementada com avidez mesquinha. Uns babacas..
3 (25 de Junho de 2026)
Se no capítulo anterior tivemos pessoas dizendo que "a pessoa podia não saber que era embalagem Volta" ou "não está assim tão deformado, dá para reparar", aqui temos um novo registo fotográfico esclarecedor. Era um saco de plástico junto do ecoponto das embalagens. Fui lá dar uma vista de olhos e tinha algumas garrafas de plástico intactas e outras completamente esmagadas. As que estavam esmagadas eram Volta, as que não estavam esmagadas não eram Volta. Se alguém tinha dúvidas que está a ocorrer em Portugal um Voltagicídio, essas dúvidas dissipam-se aqui. Há mesmo pessoas a boicotar o Sistema Volta e são como aqueles que não fodem nem saem de cima, eles não usam as máquinas nem permitem que outros as usem. Pagam 10 cêntimos pela embalagem e fazem questão de não ter esse dinheiro de Volta. Mais, fazem questão de que nenhum indigente fique com esses 10 cêntimos, os 10 cêntimos pertencem às grandes companhias que inventaram o sistema e com eles têm de ficar.
Alguém me explica o que vai na alma de alguém que esmaga assim uma embalagem só porque ela tem o símbolo Volta?? É algo que me deixa boquiaberto...
P.S.: No capítulo anterior da rubrica o amigo Manuel Melo disse que conseguia "consertar" as garrafas assim esmagadas. Eu não consigo, por mais que tente, fazê-las mudar de forma e, consequentemente, não consigo fazê-las passar pela máquina...
4 (26 de Junho de 2026)
São 04h30 da manhã, uma Rosa Mota da madrugada, fina e lesta na calçada, corre de lixo em lixo na caçada. Ela era tão leve que nem quebrava o silêncio da noite. Enfiava a mão no caixote e tirava as garrafas de plástico para um saco sem fazer um som. Reparei que ela nem verificava se eram garrafas Volta, ia tudo para o seu grande saco de plástico de Pai Natal dos pobres. Isto indicia uma técnica diferente da minha. Não guardo garrafas sem ver se são ou não Volta. Parece-me tecnicamente mais eficaz. Ela corre o risco de chegar às máquinas e verificar que metade das garrafas que apanhou não entram no sistema, não dão os tais dez cêntimos. Claro que a sua técnica permite um trabalho muito mais rápido, também por isso ela, fina e lesta na calçada, me fez lembrar Rosa Mota acelerada. Também é possível que ela seja uma profissional e já saiba bem quais garrafas servem, quais garrafas não servem. A competição está a cada dia mais cerrada, a cada minuto surge um novo contendor na busca por garrafas e latas extraviadas.
Passados cinco minutos, já a Rosa Mota da madrugada, fina e lesta na calçada, tinha desaparecido em busca de novos caixotes do lixo e contentores, um carro pára diante do Pingo Doce. Dentro dele saí um indivíduo, o pendura, que corre até ao caixote do lixo diante do estabelecimento. Solta uma imprecação de desilusão, a Rosa Mota da madrugada já ali passara na caçada, e volta a correr para o carro, que logo arranca na noite silenciosa. A competição está forte, somos muitos, demasiados.
5 (26 de Junho)
Como sou uma pessoa de uma ética a toda a prova, quando estou nas máquinas Volta a meter 150 garrafas e latas no mecanismo e aparece um indivíduo com um par de garrafas para recuperar 20 cêntimos, suspendo o meu trabalho e permito que esse pequeno utilizador Volta meta na máquina as suas 2 ou 3, 4 ou 5, 6 ou 7 garrafas. Sou um homem magnânimo, até ajudo esses pequenos utilizadores a bem meterem as garrafas na máquina, oriento-os a bem se desenvencilharem. Depois, quando eles acabam, continuo o meu trabalho, 10, 20, 30, 40, 50 garrafas, tento não empatar a vida de ninguém.
Ora, outro dia passei nesse Mercadona para fazer umas compras e não para despejar garrafas, tinha poucas na mala do carro, só umas 50, e reparei que estava estacionada mesmo em frente às máquinas (num sítio que nem é de estacionamento) uma carrinha com dezenas de sacos de plástico cheias de garrafas e latas. A carrinha dizia "comissão de festas de São João" ou algo assim e estava lá um homem e, suponho, a sua mulher e a sua filha. Ele tirava os sacos da carrinha e cada uma delas ocupava uma máquina. Havia pessoas à espera e elas não paravam, ocupavam as duas máquinas e permitiram que uma fila com pequenos utilizadores com meia dúzia de garrafas fosse aumentando atrás delas. É gente sem princípios, sem noção do outro. Não fiquei a observar muito tempo, só uns 5 minutos, mas elas, grandes utilizadoras Volta, não arredaram da máquina para dar lugar aos pequenos utilizadores, gente sem noção dos outros irrita-me muito...
6 (27 de Junho de 2026)
Imaginemos que há festa na cidade e que um grupo de amigos compra 30 latas de cerveja com o símbolo Volta e vão bebê-las para o centro enquanto andam de um lado para o outro no dezaldízio. Será altamente improvável que alguém desse grupo de embriagados se lembre de guardar as latas para, no dia seguinte, as levar a um supermercado. Diria até impossível, o mais provável é eles acabarem a noite num bar ou numa discoteca e discoteca alguma lhes permitirá entrar com 30 latas de cerveja vazias.
Como poderão fazer essas pessoas para recuperar o dinheiro (3 euros) investido naquelas latas? Logisticamente, será muito difícil pessoas nesta situação guardarem as garrafas.
Isto acontece com milhares de pessoas em centenas de vilarejos e cidades por todo o país. Eles não podem ir a um ponto com máquinas Volta porque a maior parte delas estão desligadas ou em sítios fechados durante a noite. Será literalmente impossível a pessoa levantar o dinheiro que lhe foi cobrado pela lata. Como pensa o Sistema Volta resolver este problema? Por que não haver pequenas máquinas espalhadas pelas cidades e vilas (e uma em cada aldeia) para pessoas nesta situação possam recuperar o seu dinheiro? Porque têm as pessoas de se dirigir a um supermercado Pingo Doce ou Mercadona ou um Aldi para recuperar o dinheiro de uma lata que até pode ter comprado num café ou numa vending machine?
Isto assim feito parece mesmo um truque para roubar dez cêntimos aos cidadãos por cada lata que eles compram, dinheiro esse que parece ir direitinho para as grandes cadeias de supermercados e hipermercados...
7 (3 de Julho)
Lá andava eu, no centro comercial, entusiasmadíssimo, de lixo em lixo recolhendo as latas e garrafas que, em abundância, os encimavam, quando enxerguei mirando-me, lá ao longe, o segurança da zona da restauração. Ao ver que em mim focado estava, logo entendi que me vinha chatear a cabeça, mas não desviei o foco, continuei o meu trabalho, tirei mais duas, três, quatro, cinco latas de Coca Cola com o símbolo Volta para o meu saco de plástico, ergui a cabeça do lixo e vi diante dos meus olhos um lixo ainda maior, um desses seguranças de centro comercial.
— Desculpe, o senhor não pode estar a mexer no lixo...
— Mexer no lixo? Eu estou a meter coisas que estão na parte de cima do lixo num saco...
— Peço-lhe que não mexa mais no lixo, senão teremos de pedir-lhe para sair do centro comercial.
—Mas tu estás ao serviço de quem, pá? Não estás a zelar pela segurança do centro comercial? Estou a fazer mal a alguém? Sou um perigo?
— As pessoas vêem-no a mexer no lixo, não dá bom aspecto...
— Eu não estou a mexer no lixo, caraças. Uma coisa é enfiar a mão no caixote e chafurdar na sujeira e pingar molho de lixo pelo chão. Compreendia que, se eu estivesse a sujar, me viesse chatear. Assim, só compreendo se o senhor estiver ao serviço da companhia privada Volta. Quem lhe paga é o centro comercial ou a companhia privada? É que por cada uma destas milhares de latas que vão para o lixo comum, os seus amiguinhos ganham dez cêntimos. É ao serviço deles que está?
Ele não admitiu estar ao serviço da companhia privada que gere o Volta, disse que servia o centro comercial e que dava mau aspecto uma pessoa (ele foi respeitoso e não disse que eu parecia um mendigo-porcalhão) andar a mexer no lixo, mas o que é certo é que ele é um protector das latas extraviadas, um guardião de garrafas de água deitadas no lixo comum para que não passem na máquina e não dêem os dez cêntimos a ninguém. Furioso e sob o olhar não se um, mas se dois seguranças, arrastei-me para fora do centro comercial ainda pegando em todas as garrafas que via no cimo dos caixotes do lixo..
8 (3 de Julho)
Pode ser impressão minha, mas os indigentes aqui da cidade parecem menos pedinchantes de dinheiro do que eram há 3 ou 4 meses. O Sistema Volta criou verdadeiramente uma mini-economia paralela em que estes remediados são pequenos empresários de caixote do lixo. É possível que eles agora tenham receio que alguém lhes diga, depois de pedirem dinheiro, "estás a ver aquele caixote do lixo ali? Tem lá 30 cêntimos em garrafas de água e latas". Se ele procurar afincadamente, em todos os caixotes do lixo, sem grande chafurdanço na imundície, encontrará 1 euro em meia hora. Isto, repito, sem grande esforço.
Se é verdade que este sistema é um autêntico roubo para o vulgar cidadão, para os indigentes é uma forma incrível de arrecadar uns trocos, se trabalharem a sério fazem mais dinheiro que os trabalhadores esmerados das fábricas e do salário mínimo.
9 (4 de Julho)
Se noutras zonas da cidade os caixotes do lixo têm sempre, cada um deles, 3 ou 4 garrafas ou latas com símbolo Volta prontas para serem levadas a uma máquina e convertidas em 30 ou 40 cêntimos, aqui, nas cercanias de um bairro conhecido pelo negócio de drogas pesadas, é raro encontrar uma destas garrafas ou latas no caixote do lixo. Os caixotes do lixo aqui do bairro são batidos com frequência pelos viciados em busca de trocos para comprarem drogas, enquanto noutras zonas da cidade não actuam com tanta frequência. O sistema Volta está a mudar os hábitos das pessoas, sobretudo de pessoas que moram na rua e ainda há pouca gente a falar sobre isso.
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