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Assim se Cumpre em Mim a Lei de Talião (16ª Parte)

Acordei com os olhos húmidos para a noite agradável. O Homem Orquestra acolheu-me com uma bela canção para acordar. Olhei aquele céu sintético iluminado por estrelas artificiais e esperei pela manhã, enquanto decidia o que ia fazer quando a estrela principal surgisse na pradaria. Pensava nas almas aprisionados e no que poderia fazer poe elas. Decidi perdoá-las e tentar fazer com que se salvassem. Quando a estrela da manhã despontou e o sol ainda era só anunciado por um tom de laranja no céu azul por cima da verde pradaria onde as vacas que eu ia salvar pastavam. Quando lhes apareci à vista, duas das manadas aproximaram-se de mim, enquanto as outras, que estavam mais longe, continuavam a vida mecânica. Divisava cerca de três centenas de manadas ao longo das pradarias e dos cumes verdejantes. Olhei a primeira e vi ser uma mulher que matara os filhos e se suicidara. Via-se que vivera em pobreza. A mulher, com os cabelos desgrenhados mirava-me com esperança enquanto saltava e soltava impr...

Assim se cumpre em mim a lei de talião (15ª Parte)

Atravessamos a densa barreira de árvores e, do outro lado, divisamos uma extensa pradaria, povoada com manadas de vacas que pastavam pachorrentamente sob um céu azul sem nuvens. Quando mirava horizonte em todas as suas direcçoes, o mais longe que a minha vista podia albergar, não via nada a não ser montes de pradarias verdejantes que pareciam esconder-se uns aos outros, limitados pela barreira de árvores que servia de fronteira entre a praia e a pradaria. O Homem Orquestra tocava uma sinfonia primaveril, adequada aquela paisagem. Observei-o com atenção. Não podia ter alma, pois não tinha olhos para a espelhar era um homem-máquina extraordinário, desenhado por um dos grandes mestres arquitectos do inferno ou da divisão da vida em que me encontrava, mas pelo que tinha visto até ali apenas lhe poderia chamar isso. Já antes tentara fazer o Homem Orquestra reproduzir os sons que eu queria ouvir, mas ele seguia tocando a sua melodia, creio eu, sem se aperceber da minha presença. Quando quer...

Assim se cumpre em mim a lei de talião (14ª Parte)

Deitei-me na areia ao lado do Homem Orquestra que continuava a emitir o som de um piano. Desde há muito tempo tempo que ansiava por aquele momento de conforto, pois desde que o meu corpo do mundo morrera, a minha viagem por aquele Inferno, aquele lugar inominável, ainda não tinha sentido bem-estar durante momento algum. Atravessado por relâmpagos ou boiando no Oceano, decapitado ou com dores horriveis sofrendo várias amputações, parecia que o Criador tinha finalmente reservado para mim um tempo de sossego. Como gostava que as regras deste jogo diabólico me fossem explicadas...Enquanto espírito tinha tido a hipótese de habitar um corpo na Terra. Questiono-me se tivesse conseguido entrar num corpo se não teria alcançado o Esquecimento, tão necessário para uma nova vida na terra. Deitado, sentindo a agradável textura da areia e sorrindo, pensei que era possível que todos os seres vivos da Terra, para além do homem, fossem almas aprisionadas em corpos de animais diversos, com plena consci...

Assim se cumpre em mim a lei de talião (13ª Parte)

Tirei os meus olhos do mar, sentido-me profético. Não consegui conter as lágrimas quando vi aquela armada partir para sempre. Tinha-lhes oferecido o divino, algo em que pudessem acreditar para os ajudar a evoluir e a existir melhor. Um pôr do sol laranja e magnífico iluminava a nova Terra que me foi dada para explorar, pois ainda que ainda estivesse no inferno tinha agora uma esperança nova, que me fora dada pela voz incógnita.. Depois da areia conseguia ver apenas um grupo de árvores que se erguiam em fila como uma barreira perfeita, como se o Criador daquele lugar quisesse que ele se fosse revelando aos poucos. No meio da praia estava um corpo metálico da minha altura, com quatro estruturas diferenciadas. Assentava no chão com dois longos cilindros que acabavam unidos por um paralelipípedo, a parte mais larga da criatura, que servia como anca. Em cima da anca estava encaixada uma estrutura cónica com a parte menos larga virada para cima, servindo de apoio a uma espécie de cabeça rec...

Assim se Cumpre em Mim a Lei de Talião (12ª Parte)

Mantive-me na areia, só espírito, aprisionado durante três dias. Ao terceiro uma voz gutural surgiu de lugar nenhum, talvez dentro da minha cabeça: -Foste castigado pelo teu crime horrendo e agora tens uma oportunidade de me mostrar que mereces voltar ao mundo. A voz ecoou longamente  senti um novo corpo formar-se debaixo da areia e surgi do fundo do mar, irrompedo da areia. Todos os peixes que por ali andavam estacaram e ficaram a olhar-me incrédulos, enquanto eu ia subindo em direcção à superfície. Formaram uma marcha de homenagem, um batalhão de peixes que me seguia numa procissão de fé. Abri os meus braços e senti-me eterno. Olhava para eles e via nos seus olhos o poder que exercia sobre eles, a fascinação. Quando cheguei à superfecíe e respirei o ar puro mais uma vez, o meu corpo estava dividido nos dois elementos, acima de mim, um céu imenso espelhando grande mistério, abaixo de mim, todas as espécies de peixes me idolatravam e mantinham-se expectantes quanto aos meus a...

Assim se Cumpre em Mim a Lei de Talião (11ª Parte)

Senti a secura do deserto, como uma velha árvore morta erguendo os seus despojos para o céu pronta a arder. A areia parou de me puxar pouco depois de me ter coberto o umbigo. Sugada para as entranhas da Terra, tentei escapar daquela prisão, pensando no mestre Nietzsche, como uma grande recordação, uma experiência que levou aos limites a minha sapiência. Às minhas tentativas fortuitas de escapar seguiu-se uma enorme tempestade que levantou a areia, num vento doloroso. A certa altura vi-me coberto de tanta areia que não conseguia mexer qualquer membro. A tempestade durou um mês e quando cessou, revelou-me o meu futuro próximo: VIVER APRISIONADO NUMA ESTÁTUA DE AREIA, que reproduzia um homem maneta e arquejante, uma obra de arte para ser admirada por ninguém. A garganta encheu-se de areia, por isso a minha respiração era dolorosa. Ali me quedei durante duzentos anos, pensando no pouco que Nietzsche me dissera, mas não conseguia locar as minhas forças motoras para pensar, todas as ideias ...

Assim se Cumpre em Mim a Lei de Talião (10ª Parte)

Saltei até Nietzsche e acenei-lhe com a mão que tinha a esquerda. Ele aproximou-se de mim e apertou-me a mão com amor. Olhei as suas feições, o seu espesso e bigode e espantei-me por ele aparentar ter a exacta ideia que eu tinha dele. Como no Inferno todas as conversas parecem ser antecedidas de um longo e incómodo silêncio, olhamo-nos, mudando as nossas expressões faciais, demonstrando ambos um imenso espanto. Continuamos calados, nenhum sabendo qual deveria começar e ele aguardava que eu falasse com um sorriso patético, mas eu não ia começar a falar pois a sua figura me amedrontava. Passado um pouco voltou-me costas e começou a caminhar de volta para a baleia de onde viera. Aproximei-me dele, saltando e ele, sentido-me aproximando, voltou-se com um grito: -Achas que podes gozar com o Criador? Silenciado, olhei-o estupefacto. Pensei que ele me ia acolher como um velho amigo. Um horror imenso atravessou a minha espinha quando vi que estava furioso e quedei-me mudo, gelado e aprisio...