Assim se cumpre em mim a lei de talião (15ª Parte)
Atravessamos a densa
barreira de árvores e, do outro lado, divisamos uma extensa pradaria, povoada
com manadas de vacas que pastavam pachorrentamente sob um céu azul sem nuvens.
Quando mirava horizonte em todas as suas direcçoes, o mais longe que a minha vista
podia albergar, não via nada a não ser montes de pradarias verdejantes que
pareciam esconder-se uns aos outros, limitados pela barreira de árvores que
servia de fronteira entre a praia e a pradaria. O Homem Orquestra tocava uma
sinfonia primaveril, adequada aquela paisagem. Observei-o com atenção. Não
podia ter alma, pois não tinha olhos para a espelhar era um homem-máquina
extraordinário, desenhado por um dos grandes mestres arquitectos do inferno ou
da divisão da vida em que me encontrava, mas pelo que tinha visto até ali
apenas lhe poderia chamar isso. Já antes tentara fazer o Homem Orquestra
reproduzir os sons que eu queria ouvir, mas ele seguia tocando a sua melodia,
creio eu, sem se aperceber da minha presença. Quando queria começava a tocar
muito alto um belo som e nesse momento tornava o Rei Sinfónico do momento e até
os pássaros se acercavam dele emocionados. Tentei apanhar esses pássaros para
perceber que tipo de alma tinham e porque estavam ali, escravos daquela
plataforma. Fugiram e por isso decidi aproximar-me de uma vaca, subindo a
pradaria, o Homem Orquestra acompanhou-me tocando uma música de suspense, o que
me deixou impressionado. Podia ele ter-se apercebido de que eu podia fazer uma
grande descoberta? E por isso começou a tocar aquela melodia? Olhei-o espantado
e continuei a avançar abanando a cabeça, tentando perceber aquele estranho
aparelho. Aproximei-me da vaca e olhei-a com carinho, tocando-lhe no dorso. Ela
gostou que eu a afagasse e as outras aproximaram-se de mim. Olhando-a na superficie
do seu olho esquerdo, vi o reflexo de um homem gritando, como se tivesse
aprisionado, saltando e acenando-me. Começou a gritar-me e eu ouvi-o dizer que
era um pecador terreno assim condenado a sofrer, podendo apenas lamentar-se com
um pouco sonoro uivo através dos olhos de uma vaca. Através do outro olho
apareciam imagens dos pecados cometidos em vida. Esse homem cometera vários
crimes infames e sangrentos, a sua alma tinha agora que os ver até à
eternidade. Odiei esse malvado criminoso, mas ao olhar novamente para o olho
esquerdo, vi que o homem que nesse homem aparecia sofria dores horripilantes
dentro daquela alma. Todas aquelas vacas que de volta de mim se reuniram,
espelhavam nos seus olhos imagens de pecado e de sofrimento. Todos eles eram criminosos.
Uma das vacas espelhava as imagens de um homem que se fizera explodira numa
escola para crianças. Todas as vacas pareciam existir apenas, comendo e
dormindo mecanicamente, enquanto dentro delas uma alma fervia em dor. Olhei
toda aquela pradaria e vi todas aquelas vacas que ali pastavam e comoveu-me o
número de criminosos da Terra. Chorando, voltei para a praia, completamente
desapaixonado pela raça humana, deitei-me de novo na areia e o Homem Orquestra
tocava uma melodia melancólica, enquanto as vacas baixaram a cabeça e
rapidamente se equeceram da minha presença, pelo menos nas suas atitudes
físicas. A alma da vaca sentira-me e eu tinha a certeza disso.
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