Assim se Cumpre em Mim a Lei de Talião (21ª Parte)

Quando acordei, o Homem Orquestra ainda estava a tocar a mesma melodia, começando a baixar o seu som quando abri os olhos e silenciando-se quando olhei para ele. Já não estava no topo da pirâmide nem sentia a mordedura da cobra, nem via a cobra em lugar nenhum e agora a Terra tremia com imensa força. Estava na selva deitado e levantei-me irado, olhando em volta. Queria regressar à pirâmide e áquela água prazerosa. Procurei o lugar, durante vários anos, andando às voltas na selva, cumprindo semi-círculos caminhando rumo a lugar nenhum. Num final de tarde cheguei ao fim da selva e apareceu à minha frente um desfiladeiro, com um caminho penetrando em altas escarpas que se elevavam até ao céu, escondendo o sol. Avancei pelo caminho abandonado enquanto pensava no destino do Povo que construira aquela pirâmides, junto áquele lago tão doce. Avançava deconhecendo o meu destino, com o Homem Orquestra na peúgada calando o silêncio que seria tenebroso. Junto a um grupo de árvores cumpri o meu primeiro descanso no desfiladeiro, sonhando mais uma vez com o líquido em que a cobra merulhava. Avancei naquela paisagem doze dias e depois ela transformou-se totalmente, como se tivessemos transferido a plataforma, o lugar onde me encontrava para o abismo e eu tivesse subido para a zona superior, pois agora, eu estava no topo de uma escarpa, bem mais baixa que as anteriores e consegui ver, lá bem em baixo, um caminho solitário para umas árvores felizes. A neblina não me permitia ver para cima, nem contemplar o horizonte numa vasta extensão. Avancei vários dias e comecei a ver corpos rastejando lá em baixo. Vi-os com terror e tive pena das suas almas. Queria comunicar com eles, mas a descida era impossível. Eles avançavam como um pelotão de aleijados, apenas dotados de barriga e braços, enfileirados por ordem de um qualquer demónio. Impossibilitado de os ajudar, e como gostava de os transportar nos braços e amá-los longamente, nas trevas do Inferno, curvei-me impotente e levei as mãos à cabeça, o Homem Orquestra soava tenebrosamente. O Inferno está demasiadamente bem feito para ser suportado pelos espíritos comuns. Tudo nos é vedado, tudo nos é impossibilitado. Dormi ali, durante duas semanas e o Homem Orquestra, compreensivo, tocava êxitos musicais de que eu gostava. Ele estava na minha mente e eu na dele. Era um glorioso contacto, uma compreensão entre almas, mesmo nos confins dos submundos.

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